Lendas Do Fado


ImageAdriano Correia de Oliveira “era um homem de grande sensibilidade, um homem de compromisso”. É desta forma que o etnólogo e seu amigo pessoal, Louzã Henriques, o recorda. “Era uma boa pessoa, muito ligada aos seus amigos, vivendo sempre num clima de uma certa boémia artística que apreendeu em Coimbra, mas que se prolongou em Lisboa”.

Nascido no Porto e criado em Avintes, Adriano chegou a Coimbra em Outubro de 1959 para frequentar o curso de Direito, com apenas 17 anos, num tempo de agitação social propícia a impulsos e à mudança. Anos antes, a década de 50 – no pós-guerra – , tinha sido uma época marcada por fortes repressões. Só o movimento das eleições presidenciais de Humberto Delgado (em 1958) viria a ser “uma espécie de lufada de ar fresco”. Agora, “o país parecia mobilizar-se em toda a sua extensão, as pessoas tinham perdido um pouco o receio de falar”, recorda Louzã Henriques. Nessa altura começa também a surgir “um certo tipo de música, com as baladas, um certo tipo de leitura e de arte, factores que vão ter influência na forma de pensar o mundo”. E tudo isso chegou a Coimbra...

Na cidade dos estudante de então, o fado vivia uma época de mudança, com o contributo de cantores como Edmundo Bettencourt (fundador da Presença e que se tornou lendário como compositor e intérprete da canção de Coimbra) ou Artur Paredes. Mas Adriano “bebeu” outras influências graças uma geração de ouro: a de Fernando Machado Soares, que encetou a renovação do fado de Coimbra. “Havia um movimento de ideias muito intenso e profundamente dinâmico, propício à mudança”, refere o etnólo.

Em 1959, o então estudante de Direito inscreveu-se como primeiro-tenor no Orfeão Académico e, inevitavelmente, juntou-se às vozes do fado de Coimbra. A Academia e a cidade proporcionavam a Adriano novos horizontes intelectuais. Aí entrou em contacto com os problemas da sua geração, que eram os problemas de uma juventude em rota de colisão com o regime. Na década de 60 participou também no Grupo Universitário de Danças Regionais da Associação Académica de Coimbra e no CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, onde representou várias peças.
Viveu, primeiro, numa residência de estudantes. No ano lectivo de 61/62 transferiu-se para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, voltando para a Universidade de Coimbra no ano seguinte. Passou então a viver na república Rás-Te-Parta que, em 1963 serviu de sede de candidatura à unidade democrática, concorrente para as eleições da Associação Académica patrocinada pelo Conselho das Repúblicas.
“Nessa época, as repúblicas eram “templos” de uma certa boémia tertulial. Ali chegavam as influências que corriam no mundo e as que ainda estariam nas próprias tensões criadas pelo ambiente político de Portugal. Discutia-se com grande à vontade”, recorda Louzã Henriques. “As repúblicas, os cafés e a própria organização associativa, neste caso concreto a associação académica, forneciam um campo de experiências, ao nível das artes, ao nível da afirmação de direitos, ao nível da afirmação da posição da academia em relação ao poder, o que começava a representar uma agitação de ordem intelectual”, relata.

Entre 1960 e 1980 Adriano gravou 90 títulos, deixando uma das obras musicais mais ricas da segunda metade do século.
Tal como outros músicos em Portugal ou no exílio, também Adriano Correia de Oliveira fez da música um acto de intervenção. A “Trova do Vento que Passa” , escrita por Manuel Alegre e por ele cantada, constituem uma referência ímpar das músicas de intervenção em Portugal contra o regime fascista e um hino do movimento estudantil.
Quando lhe faltava uma cadeira para terminar o curso de Direito, Adriano trocou Coimbra por Lisboa, trabalhou no Gabinete de Imprensa da Feira Industrial de Lisboa (FIL) e foi produtor da Editora Orfeu.
Na fase final da sua vida – Adriano viria a falecer a 16 de Outubro de 1982, com 40 anos, em Avintes vitimado por uma hemorragia esofágica – foi acompanhado à guitarra por Paulo Vaz de Carvalho (hoje docente da licenciatura em Ensino da Música na Universidade de Aveiro), que teve um papel fundamental nessa época. “Era muito rigoroso e um excelente artista e amigo”, lembra o médico.

Adriano nunca deixou Coimbra e, das muitas vezes que regressou, ficou hospedado em casa do seu amigo Louzã Henriques. O médico, que esteve quatro anos preso em Peniche por oposição ao regime, não acompanhou a vida académica de Adriano, mas a amizade, que nasceria naos mais tarde, permaneceu até ao fim dos seus dias. Hoje, quando fala do companheiro de luta e de sonhos, Louzã Henriques não esconde a saudade.
“Para a altura em que ele cantou certas coisas, foi um homem valente. Cantou coisas em que se afirmava, num tempo em que a repressão era muito violenta”, lembra o médico. Todavia, “encarou isso sempre com grande coragem, com grande postura. Não era um homem de inocências políticas. Era um homem que sabia perfeitamente o que queria e por que lutava. Nasceu para ser livre e para ser artista”.
Hoje, Abril, faria 65 anos.

In As Beiras Online
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ImageSe fadista houve que, de modo absolutamente incontestável, marcou a história e a evolução do fado, ele foi Alfredo Duarte, marceneiro por profissão e Marceneiro de nome artístico. A sua longa carreira abrangeu praticamente todo o século XX e todas as diferentes fases por que o género passou, dos bailes de bairro, cafés de camareiras e retiros até às casas de fado e edições discográficas. E a Marceneiro se devem algumas das mais clássicas e aclamadas composições do género embora ele não fosse compositor nem tivesse educação musical.

Alfredo Duarte era realmente marceneiro, ofício que se viu forçado a aprender aos 14 anos após a morte do pai. Marceneiro nascera em Lisboa em 1892, filho de um sapateiro, tinha um certo gosto pela representação e teria gostado de aprender música, gosto que herdara da mãe. A sua voz fora já notada em algumas cegadas carnavalescas, típicas do início do século XX, em que participara. Mas era preciso sustentar a família e Marceneiro começou por ser aprendiz de encadernador, por acaso na oficina onde também trabalhava um dos primeiros fadistas de renome, Júlio Janota. A opção pela marcenaria surgiu mais tarde, quando compreendeu que a encadernação não lhe deixava o tempo desejado para participar nas cegadas e bailes onde podia dar livre curso à sua paixão pela música e pelo fado.
Nesse tempo os bailes abriam-se a todos aqueles que tivessem habilidade e gosto para cantar e a voz de Marceneiro começou aí a destacar-se, embora ele próprio não considerasse ter uma grande voz. Ao contrário dos fadistas de carreira, que se podiam dar ao luxo de encomendar letras especificamente para o seu repertório, estes amadores interpretavam versos que eram publicadas nas muitas revistas de fado existentes, dirigidas por nomes célebres como o cantor Carlos Harrington ou o letrista Linhares Barbosa.

Conhecido inicialmente por Alfredo Lulu pelo cuidado que colocava na sua aparência (cantava de laço em vez da tradicional gravata, que só muitos anos depois substituiria pelo lenço de seda que se tornaria na sua marca registada), só na década de vinte o fadista passaria a ser conhecido artisticamente como Marceneiro, numa altura em que a sua reputação já era assinalável no meio. Não se limitava aos bailes ou desgarradas; era também presença assídua dos célebres "cafés de camareiras" que, aliás, recordaria anos mais tarde numa das suas melhores criações, e numa das primeiras casas de fado, o Catorze do Rato, onde foi notado pelo poeta popular Manuel Soares, que lhe escreveu as suas primeiras letras.

É em 1924 que recebe o seu primeiro contrato profissional, actuando no Chiado Terrasse. Até aí cantava para pagar o jantar, reflectindo a tradição fadista que levava os cantadores a actuar apenas uma ou duas noites por semana para não privarem os colegas de trabalho, e a interpretarem apenas o seu próprio repertório. Quase todos os cantadores tinham empregos diurnos para ganharem o seu sustento, pois não existia direitos de autor e um fadista não podia viver apenas do dinheiro ganho nas noites de actuação. Era uma época de verdadeiro amadorismo, em que os fadistas cantavam por gosto sem pensar na aclamação do público ou no cachet que receberiam no fim; é, aliás, desta época que datam as desgarradas e cantares ao desafio, nascidos das "guerras" amigáveis entre cantadores que definiam as suas qualidades e reputação. Só com a implantação das casas típicas de fado o panorama se começou a alterar e Marceneiro foi um dos que mais se popularizou graças a elas, chegando inclusive a ser convidado para cantar em revistas teatrais, onde se estreou em 1930.
 in: “Lisboa no Guiness” by Victor Marceneiro 
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ImageAmália da Piedade Rodrigues nasce numa família  pobre e numerosa, que, vinda da Beira Baixa, tentava a sorte na capital. Passado pouco tempo, os pais voltam para a província, e deixam Amália com quatorze meses a viver com os avós maternos.
 Dizia-me a minha família que aos 4 anos já ganhava a vida a cantar, pelas vizinhas que diziam, "ó Amália anda cá, canta lá esta". E eu cantava. * E depois lá pelos 7, 8 anos comecei a ouvir as vizinhas lavar a roupa na selha e cantar o fado, que eu não sabia o que era fado. Depois, aos meus 12 anos comecei, já internacional, a cantar os tangos do Gardel, que ouvia nas fitas, e vinha para casa sem saber o que dizia, mas ouvia o som, o som das palavras soava-me como parecia que era, e quase que era, porque no fundo como sabe a língua espanhola é muito parecida com a nossa, e para quem tem um ouvido e um poder dedutivo entende mais depressa do que uma pessoa que não tem ouvido, nem esse poder. Então, eu quase que imediatamente aprendia as coisas. E então cantava o Carlos Gardel todo.
Amália inicia a escola primária em Lisboa. É durante a escolaridade primária que canta pela primeira vez em público, numa festa da Escola Primária da Tapada da Ajuda. 
Aos 14 anos, Amália, vai viver com os pais e os irmãos, que entretanto regressam a Lisboa. Em condicões de grande pobreza, Amália, que mal conhece a família, sente dificuldade em se integrar, nunca deixando de se considerar uma intrusa.
Aos 15 anos, Amália -- acompanhada da mãe e da irmã -- vai vender fruta para o Cais da Rocha, em Alcântara. Anda dois anos pelo cais. É então que se torna notada no bairro pelo timbre especial da sua  voz, o que a leva a ser escolhida para solista da Marcha de Alcântara, estreando-se em 1936 pelas ruas de Lisboa. As marchas populares, ficarão para sempre  no reportório de Amália.
É o ensaiador da Marcha quem insiste para que Amália se apresente no Concurso da Primavera, organizado para descobrir uma nova cantadeira. E se Amália acaba por não concorrer, pois as outras participantes recusam-se a competir com ela, é nesse concurso que Amália conhece Francisco da Cruz , um guitarrista amador com quem casa em 1940. O casamento, porém, não dura mais de dois anos. É também durante esses ensaios que é notada por um assistente que a recomenda a Jorge Soriano, director da casa de fados mais famosa da época, Retiro da Severa. A audição é um sucesso, mas, com a família contrariada, Amália acaba por não aceitar o convite.
Estreia-se finalmente no Retiro da Severa, em 1939, acompanhada por Armandinho, Jaime Santos, José Marques, Santos Moreira, Abel Negrão e Alberto Correia, interpretando três fados.
O êxito no Retiro da Severa pega como um rastilho e espalha-se por Lisboa -- todos querem ouvir esta nova cantadeira, todas as casas de fado a querem contratar. Amália torna-se rapidamente cabeça de cartaz. Num espaço de poucos meses, Amália passa também a actuar no Solar da Alegria e no Café Luso. Até essa altura, Ercília Costa, Berta Cardoso, Hermínia Silva e Alfredo Marceneiro eram os ídolos máximos do fado, mas com a aparição de Amália tudo se vai modificar.
Amália torna-se rapidamente o nome mais famoso de todos os ídolos do fado. Por onde actua faz esgotar lotações; os preços dos bilhetes sobem mal é anunciada. Em poucos meses atinge uma popularidade tal que o seu cachet é de longe o maior até então pago a uma fadista.
Tão rápido é o êxito de Amália nos retiros fadistas que logo a chamam para o teatro. Estreia-se em 1940, como atracção da revista "Ora Vai Tu", no Teatro Maria Vitória.

1941-43


Amália transfere-se para o Solar da Alegria, como artista exclusiva e já com repertório próprio. É no Solar da Alegria que é abordada por José de Melo que passa a ser seu empresário, e que evita que grave discos, com o argumento de que a possibilidade de ouvir a voz da cantora em casa iria afastar o público das casas de fado. Amália torna-se rapidamente o nome mais famoso de todos os ídolos do fado. Por onde actua faz esgotar lotações; os preços dos bilhetes sobem mal é anunciada. Em poucos meses atinge uma popularidade tal que o seu cachet é de longe o maior até então pago a uma fadista.
Primeiro no Retiro de Severa eram 500 escudos por mês. Depois no Solar da Alegria eram 800. E quando eu ganhava esse dinheiro é o que o Sr. José de Melo vem e diz:

"Quanto é que a menina ganha aqui?"
"eu ganho 800 escudos por mês."
"então a menina não vê que a estão a explorar?"
"porquê?"
"você não vê que quando você não está pedem 2$50 por bilhete e não está cheio e quando a menina está custa 7$50 e está cheio! Estão a explorá-la !! Vocé vai para casa, e quem a quiser contratar vem falar comigo ao Café Lagar porque esse dinheiro que você ganha por mês eu garanto-lhe... e esse dinheiro vai você ganhar por espectáculo!"

Ah, eu pensei que ele estava doido!! E então, eu realmente fui para casa, e começou o Solar da Alegria a chamar. "Não vou mais, não quero ir mais, vá falar com o Sr. José de Melo, no café Lagar das 5 às 7. E comecei, daí a um mês, já ganhava 300 escudos por dia, e depois daí a dois meses ou três já ganhava um conto por espectáculo.
Já ia tendo um reportório melhor, ia comprando umas cantigas que naquela altura se compravam a trinta escudos a cantiga. Os poetas de fado faziam e vendiam as cantigas. Era assim que eles viviam,coitados. * Havia, o Linhares Barbosa que era o melhor poeta daquela altura, mas mesmo assim às vezes,comprava, quando já ganhava mais, trinta letras para escolher três. Já tinha um tipo de exigência que muita gente não tinha.

Tão rápido é o êxito de Amália nos retiros fadistas que logo a chamam para o teatro. Estreia-se em 1940, como atracção da revista "Ora Vai Tu", no Teatro Maria Vitória. Até 1947, Amália aparece em várias revistas e operetas criando no Teatro fados e canções de grande sucesso, e conquistando assim um público muito mais vasto. É no Teatro ainda, que encontra o compositor Frederico Valério. Valério compreende que a melodia do fado é demasiado estreita para uma voz com tal extensão e compõe para Amália músicas que ficariam para sempre no seu reportório.
Amália é convidada pelo realizador António Lopes Ribeiro para integrar o elenco do filme “O pátio das cantigas”, mas o maquilhador António Vilar aponta-a como pouco fotogénica e o seu papel acaba por ser atribuído a Maria Paula. Surge na revista do teatro Variedades “Espera de Toiros”, ao lado de Mirita Casimiro, Vasco Santana e Santos Carvalho.
Cria Maria da Cruz na revista “Essa é que é essa”.
Amália actua pela primeira vez no estrangeiro, em Madrid, a convite do embaixador Pedro Teotónio Pereira. É a esta viagem que Amália diz dever o seu prazer em canções espanholas e flamengo.

1944-48

Amália tem já um papel proeminente, ao lado de Hermínia Silva, na opereta “Rosa Cantadeira”, onde cria o “Fado do Ciúme” de Frederico Valério. Estreada no Teatro Apolo em Abril, a opereta fica dois meses em cartaz.
Em Setembro de 1944, Amália chega ao Rio de Janeiro  acompanhada pelo maestro Fernando de Freitas para actuar no mais famoso casino da América do Sul: o Casino Copacabana. Com 24 anos Amália estreia já um espectáculo inteiramente concebido para ela. A recepção é tal que o seu contrato inicial de 4 semanas se prolongará por 4 meses.
 A recepção foi lá muito engraçada. Havia uma orquestra, e eu tinha de cantar 2 fados com orquestra e os outros com guitarras. Eu ia com o Freitas, o pai do Girão, coitado já morreu, e então os músicos começaram todos: "Ó minha mãe, minha mãe," e eu assim "Ahhh, ó Freitas, eu não canto, tu dás a melodia, dás o tempo que eu levo a cantar mas eu não canto". E assim foi. Só cantei na estreia, mas depois eu cheguei lá, e antes de eu ir cantar "diga tudo o que puder, que está para vaiar" isto era lá uma pessoa que tomava conta do espectáculo. E eu com o medo que eu já tenho, com a novidade do sitio, com a pompa toda do Golden Room que era uma coisa muito importante. A coisa mais chique no Rio, no Brasil. Então eu desço uma escada, e chego ao microfone, (canta) "Sei finalmente, ...". Eu estava completamente tolhida, quase asfixiada. Mas como eu vinha muito bem vestidinha, a presença era muito engraçada, e eu depois comecei a cantar o segundo e o terceiro, e cantei, cantei. Depois no fim estava o Atalaia, que era o director geral do Casino, sentado numa mesa com uma garrafa de champanhe, do melhor que havia, e então chamou-me para a mesa dele, deu-me os parabéns. Foi lá buscar-me para a mesa dele, já vestida de outra maneira, e vem outros "Parabéns, Sr. Atalaia a patrícia é formidável, Parabéns", e realmente foi um êxito enorme.
O êxito é tão grande que, seis meses mais tarde, o Casino Copacabana convida Amália para mais uma temporada. Desta vez pedem-lhe que leve com ela uma companhia que inclua, para além dos músicos, algumas bailarinas, com intenções de montar um espectáculo para levar por todo o Brasil.
Nesta longa estadia no Brasil, Amália leva como director de orquestra o maestro Frederico Valério. É então no Rio de Janeiro que nasce um dos seus maiores sucesso de sempre, "Ai, Mouraria" que Amália estreia no teatro República  do Rio em 1945.
Amália grava pela primeira vez no Rio de Janeiro uma série de discos de 78 rotações. São estas gravações que vão levar a sua voz por toda a parte dando início a uma das mais excepcionais carreiras discográficas. De regresso a Lisboa em 1946 fala-se muito dum convite que a 20th Century Fox faz a Amália para filmar em Hollywood. No entanto, a sua estreia no cinema será em Portugal.
Em Maio de 1947, estreia-se o filme “Capas Negras”, que marca  a estreia no cinema de Amália e bate todos os recordes de exibição até então. A seu lado está Alberto Ribeiro.
"Capas Negras" fica 22 semanas em cartaz, tornando-se no maior sucesso do cinema português. Amália atingirá em breve, uma popularidade até então nunca conhecida. Em 1947, Amália é já um nome indispensável no fado, no teatro no disco e no cinema.
Novembro traz a estreia no Coliseu do Porto do segundo filme de Amália: “Fado – História de uma cantadeira”, fortemente publicitado como inspirado pela vida de Amália (o que não corresponde à verdade), e que é um novo êxito comercial.
O fado? Bem, esse eu gostei de fazer. Gostei sobretudo de uma cena de ensaios, que fui eu que inventei. Porque se eu aprendia a cantar com um guitarrista que era o meu namorado, tinha que aprender mesmo. Então cantava pior, de propósito, depois cantava melhor, e era mesmo um ensaio a sério. 
Pela sua interpretação neste filme, Amália recebe o Prémio do SNI para a melhor actriz de cinema do ano.

1949-1954

Em poucos anos, Amália torna-se num símbolo do sucesso nacional: a rapariga pobre que com o poder do seu canto passa da noite para o dia a ser rica e famosa, despertando todas as paixões. Tudo sobre ela se diz, tudo sobre ela se quer saber,  todos os amores lhe são atribuídos. À sua volta gera-se uma curiosidade sem precedentes, sendo discutida, criticada, copiada, e seguida com ilimitado fervor.
Amália canta pela primeira vez em Paris, no Chez Carrère e em Londres no Ritz, em festas do departamento de Turismo organizadas por António Ferro.
Em 1949 estreia-se o filme "Vendaval Maravilhoso", uma co-produção Luso-Brasileira, baseada na vida do poeta baiano Castro Alves. Amália interpreta o papel de Eugénia da Câmara, a amante do jovem poeta, criando uma personagem totalmente diferente daquelas que lhe eram normalmente atribuídas. Neste filme histórico de Leitão de Barros, o mais prestigiado realizador da época, Amália atinge uma espantosa força dramática, comparável às grandes trágicas do cinema. Mas o filme é um fracasso comercial.  
Um marco decisivo na internacionalização de Amália é a sua participação, em 1950, nos espectáculos do Plano Marshall; um programa de apoio Americano à Europa do pós-guerra onde participam os mais importantes artistas de cada país. O êxito repete-se por Trieste, Berna, Dublin e Paris. Amália começa a dar que falar pela Europa. Em Roma, Amália actua no Teatro Argentina, sendo a única artista ligeira num espectáculo em que figuram os mais famosos cantores clássicos do momento.
E quando eu vi que era uma orquestra sinfónica e que todas as pessoas eram cantoras clássicos, estava Canilla, naquela altura a cantar lá, um Jacques Tibaut que tocava um instrumento qualquer, quer dizer tudo aquilo era clássico, menos eu. Uma orquestra enorme e eu sozinha com uma guitarra e uma viola. E eu enchi-me de medo, e eles também, os guitarristas, ficaram apavorados, com uma orquestra a tocar e eles com a guitarra e a viola, e eu a cantar com aquelas vozes. Estávamos todos aterrorizados.  E eu dizia assim, "só espero que Nosso Senhor me dê uma hora de febre muito alta, para eu não ir cantar, mas realmente não tive a febre, fui cantar mesmo. Entrei, com certeza que a cara que eu tinha, quando entrei no palco era tão desgraçada que as pessoas começaram a olhar para mim com uma ternura que isso animou-me um bocado. Não sei se a ternura foi da minha presença, eu olhei para as pessoas e as pessoas olharam para mim com um certo interesse. O medo era tão grande que se via, transparecia na cara. E depois, tive um sucesso muito grande, e pela primeira vez na minha vida e última tive um chelique, chorava e ria ao mesmo tempo, e veio toda a gente "perque piange, perque piange, e estato un sucesso formidabili, perque ? Le brava, le brava". E eu estava assim naquela coisa, só acreditei naquilo quando saí, estavam as pessoas à espera e quando eu saí começaram todas a bater palmas.
Durante um espectáculo em Dublin, Amália canta “Coimbra”, que fica no ouvido da cantora francesa Yvette Giraud que a populariza em França como “Avril au Portugal”.
Quando Amália regressa a Lisboa, dá-se o encontro com Alberto Janes, um desconhecido que faz de propósito para ela a música e a letra de um fado que haveria de dar a volta ao mundo.
O Alberto Janes apareceu-me na minha casa,* "Sabe, eu sou formado em farmácia, tenho uma farmácia em Reguengos, mas a minha paixão é a música, a minha paixão é ser artista, e faço umas coisas e fiz um fado que toda a gente diz quando ouve este fado - "isto é um fado para a Amália, isto é um fado para a Amália, isto é um fado para a Amália"- entusiasmaram-me, e eu vim até aqui". Apareceu-me assim com aquele fado "Foi Deus" que todo a gente pensava que não era bom, quem estava na minha casa, e eu assim "é bom, é" porque já me estava a ouvir a cantar o fado, não era ele porque ele não tocava bem, nem cantava bem. Fez um fado muito bonito, até agora é um grande fado, em qualquer parte do mundo eu canto aquilo faço um efeito extraordinário. As palavras que ele escreveu, a música que ele escreveu, as palavras levam-me a mim a cantar com uma força, porque não há nenhuma música que leve assim aquelas ovações que leva de calor humano só porque é bonita. Há outra coisa qualquer que a pessoa sente, e quando chega ao fim "Foi Deus que me pôs no peito, o rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar", às vezes estou nuns dias que começo a desfiar o choro e quase não posso acabar de cantar. Eu vi logo que aquilo era para mim.
A partir de 1950, Amália não pára de viajar. Sucessivas tournées levam-na a África, e às Américas. No México obtém um grande sucesso, aí permanecendo longas temporadas. Amália que sempre cantou em espanhol, descobre então a canção popular Mexicana, a ranchera, que passa a acrescentar ao seu reportório. No entanto, será com o fado que Amália conquista o México.
 Deixando o México rendido ao seu fascínio, Amália parte para actuar num dos lugares mais célebres à face da terra. Após as suas actuações no Mocambo de Hollywood, ponto de encontro das grandes estrelas do cinema Amália recebe propostas para filmes bem como os mais rasgados elogios da crítica.
 Em 1952 Amália actua pela primeira vez em Nova Iorque, no La Vie en Rose, onde ficará 14 semanas em cartaz. Torna-se na primeira artista portuguesa a actuar na televisão americana no famoso programa “Coke Time with Eddie Fisher”, onde interpreta “Coimbra”.
 Assina contrato com a casa Valentim de Carvalho, fazendo as suas primeiras gravações para a companhia discográfica nos estúdios da EMI inglesa, em Londres. A relação discográfica de Amália com a Valentim de Carvalho só será interrompida brevemente, nos final dos anos 50, por uma passagem pela editora francesa Ducretet-Thomson, após a qual Amália regressará à Valentim de Carvalho de vez.
 Amália é convidada para um pequeno papel no filme de Henri Verneuil “Os Amantes do Tejo", produção francesa parcialmente rodada em Portugal, com Daniel Gélin e Trevor Howard. No filme Amália interpreta “Canção do Mar” e “Barco Negro”, que correm mundo arrastadas pelo sucesso do filme.
Edita o seu primeiro LP: “Amália Rodrigues sings Fado from Portugal and Flamenco from Spain”, publicado nos EUA pela Angel Records. Este álbum nunca será editado em Portugal com este alinhamento, mas conhecerá edições em Inglaterra e, em 1957, também em França.

1955-1961


Como no palco, também em estúdio, Amália só canta quando gosta de se ouvir. O ambiente familiar que se veio a  criar nos estúdios Valentim de Carvalho onde Amália se rodeava de amigos, gravando pela noite dentro, tornou-se indispensável para transformar essas sessões em momentos únicos. E foi assim, que vida fora, Amália gravou os seus grandes discos sempre acompanhada pelo técnico de som Hugo Ribeiro.
Em 1955, no meio de grande expectativa, Amália estreia-se como actriz dramática na célebre peça de Júlio Dantas "A Severa". Levada à cena no teatro Monumental, este drama criado em 1901 é uma versão romantizada da vida da mítica fadista Maria Severa. Esta produção de Vasco Morgado contava com Amália Rodrigues  no papel de Severa e Paulo Renato como Marialva.
Também em 1955, filma “April in Portugal”, filme inteiramente dedicado a Portugal e ás suas belezas naturais, em Technicolor e Cinemascope. Estreado em Londres em 1955, este filme, em que Amália interpreta “Coimbra” e “Canção do Mar” foi premiado nos festivais de Berlin e Mar del Plata.
Em nova deslocação ao México, filma “Musica de Siempre” com Edith Piaf.  
Em Abril de 1956, Amália, actua pela primeira vez no Olympia de Paris, numa das festas de despedida de Josephine Baker. Dias mais tarde, estreia-se no Olympia como “vedeta americana”, encerrando a primeira parte do espectáculo. O sucesso é tal que, terminadas as três semanas do contrato, Amália é convidada para o prolongar mais três semanas. No ano seguinte, estreia-se como primeira vedeta no Olympia de Paris.
Em menos de três anos, Amália atinge em França o máximo do prestígio e da popularidade. As actuações sucedem-se, os discos multiplicam-se e o público cada vez se mostra mais delirante. Também os artistas a adoram, muitos escrevendo canções especialmente para ela, como foi o caso de Charles Aznavour que inspirando-se no Ai, Mouraria  escreveu para Amália: Ay, Mourir Pour Toi.
Amália assina contrato com a editora francesa Ducretet-Thomson, para a qual gravará material publicado em dois álbuns e cinco Eps antes de regressar à Valentim de Carvalho.
Actua no filme de Augusto França “Sangue Toureiro”, o primeiro filme português colorido, onde tem um dos papéis principais e interpreta cinco canções de Frederico Valério. Estreia-se na televisão portuguesa, no papel principal da peça “O céu da minha rua” adaptada de uma peça de Romeu Correia. Durante a exibição desta peça as ruas das principais cidades portuguesas ficam desertas. Todos querem ver e ouvir Amália.
Nessa altura o sucesso internacional de Amália leva a que se organizem em Lisboa grandes festas em sua homenagem. Na Feira Internacional de Bruxelas, Amália recebe do governo português a primeira das suas muitas condecorações.  A sua popularidade não pára de aumentar. Em 1959, a revista Variety elege-a como uma das 4 melhores cantoras do mundo.
Em 1961, confirmam-se os boatos que desde há muito andam no ar. Amália casa-se no Rio de Janeiro com o engenheiro César Seabra  e anuncia que vai abandonar a carreira artística passando a viver no Brasil. Um ano depois Amália regressa a Lisboa.

1962-1967

Em 1962, Amália inicia aquela que será a grande viragem da sua carreira: o encontro com a música de Alain Oulman. Este compositor, ligando uma melodia carregada de ambiente a uma forma definida mas ampla faz música que permite a Amália cantar poetas que até então não cabiam no fado clássico.
O Alain, que foi então a mudança, *  foi o nascer duma artista completamente diferente * porque não só a música dele era formidável, era mesmo ao meu feitio. Eu estava à espera daquela música. Não é que estivesse à espera, mas a minha maneira de cantar estava à espera daquilo. E aquilo satisfez plenamente o eu poder alargar-me em eu poder dizer bem as frases, aquelas frases bonitas, dar força que elas tinham. E depois não foi só isso, cultivei-me um pouco com ele, porque os poetas todos cantei-os desde o Século XII e XIII ao Camões e todos os poetas bons. Eu cantei os poetas por causa do Alain.  
Tão intensa é a compreensão que entre eles se estabelece que, até ao fim da sua vida, Alain Oulman nunca mais deixa de escrever música para Amália.
É editado o célebre LP “Amália Rodrigues”, mais conhecido como “Busto” ou “Asas fechadas”. Trata-se do primeiro álbum de Amália pensado como um álbum, e é igualmente o seu primeiro disco com músicas de Alain Oulman. Os doze temas do álbum (pensado inicialmente para o mercado inglês) serão publicados no início de 1963, espalhados por três EP´s.
Este trabalho representa uma grande viragem na sua vida artística e aí canta temas como “Estranha forma de vida” e “Povo que lavas no rio”, de Pedro Homem de Melo.
De triunfo em triunfo Amália faz vibrar os públicos mais diversos. Em 1962 no festival de Edimburgo mais uma vez a consideram à altura dos grandes artistas clássicos. Em 1963, em Beirute, é tal o seu prestígio, que a convidam a acompanhar com os seus fados uma Missa de Acção de Graças pela independência do Líbano. E continua sempre a voltar aos países que não se cansam de a reclamar. Em Paris, o acolhimento do público é sempre delirante, não só no Olympia, como participando nos mais sensacionais acontecimentos artísticos.
Em 1964 Amália regressa ao Cinema com "Fado Corrido", um Filme de Brum do Canto baseado num conto de David Mourão Ferreira, onde mais uma vez lhe dão um papel de fadista. Na estreia do filme em Lisboa confirmou-se mais uma vez que Amália continuava a ser a artista preferida do público português. Onde quer que aparecesse era sempre uma sensação.
Em 1965, Amália atinge a sua melhor interpretação no cinema em "As Ilhas Encantadas" do estreante Carlos Vilardebó, baseado numa novela de Herman Melville. Neste filme, diferente de todos os outros da sua carreira, Amália pela primeira vez não canta. Amália  volta a receber o prémio de melhor actriz com "As Ilhas Encantadas" e no ano seguinte aparece no filme francês "Via Macau".
É durante as filmagens nos Açores que conhece Augusto Cabrita, que se transformará até à sua morte, no seu fotógrafo oficial.
Estas interpretações no cinema, confirmam Amália como uma grande actriz dramática. Em 1967 em Cannes, Anthony Quinn, com enorme entusiasmo, anuncia oficialmente que prepara dois filmes para Amália, sendo o primeiro Bodas de Sangue de García Lorca. Mas Amália prefere exprimir-se no canto.
No meio de grande polémica é editado o “infame” EP “Amália canta Luís de Camões”, que inclui “Lianor”, “Erros meus” e “Dura memória” musicados em fado, e o célebre álbum “Fado Português”.  
“As ilhas encantadas” estreia em Portugal; o filme é mal recebido pela critica e pelo público e Amália não voltará a aceitar um papel principal no cinema, apesar da insistência de amigos como Anthony Quinn.
Amália actua no Lincoln Center em Nova Iorque, em 1966, com o maestro André Kostelanetz, num concerto de temas folclóricos portugueses acompanhados a orquestra. O concerto será posteriormente repetido no Hollywood Bowl e inspirada pelos concertos, grava nos estúdios da Valentim de Carvalho temas do folclore português com orquestra, com arranjos dos maestros Joaquim Luís Gomes e Jorge Costa Pinto. Lançado em Portugal em três EP´s, o material será recolhido em álbum em França.
Faz uma temporada no Olympia como primeira figura de um espectáculo denominado “Grand Gala du Music-Hall Portugais”, inteiramente composto por um elenco português do qual fazem parte Simone de Oliveira , o Duo Ouro Negro e Carlos Paredes, entre outros. Grava o “Concerto de Arranjuez” de Joaquin Rodrigo com uma letra em francês, “Arranjuez, mon amour”, acompanhada pela orquestra de Joaquim Luís Gomes e edita o álbum “Fados ´67” (que virá a ser mais conhecido por “Maldição”).
Em 1967, Amália recebe o prémio MIDEM atribuído ao cantor que mais vendas teve no seu país com o disco "Vou Dar de Beber à Dor". O prémio MIDEM de 68 e 69 é-lhe de novo atribuído, uma proeza excepcional só igualada pelos Beatles

1968-1974

Amália edita “Vou dar de beber à dor”, uma composição do estreante Alberto Janes que se tornará num dos seus maiores êxitos de vendas, vendendo para cima de cem mil cópias entre singles e EP´s.
A RTP transmite a peça de Frederico Garcia Lorca “A sapateira prodigiosa”, com Amália no papel principal.
Actua pela primeira vez na União Soviética.
Lança o álbum “Marchas de Lisboa”, que reúne uma selecção das melhores marchas gravadas entre 1963 e 1968, e “Vou dar de beber à dor”, a primeira de uma série de compilações reunindo material publicado anteriormente em singles e EP´s avulsos.
É convidada de honra no Festival du Marais, em Paris e das Olimpíadas da Canção, em Atenas.
Em 1970, Amália atinge o auge da sua carreira discográfica em "Com que Voz" onde, sempre com música de Alain Oulman, canta alguns dos maiores poetas da língua portuguesa. Este disco conquista para Amália os mais importantes prémios da indústria discográfica: IX Prémio da Critica Discográfica Italiana (1971), o Grande Prémio da Cidade de Paris e o Grande Prémio do Disco de Paris (1975).
É dos discos que eu mais gosto. Desde que eu o fiz, e não fui só eu, fui eu e foram os músicos, os poetas...  os músicos é o Alain, os poetas e depois também o acompanhamento, que está muito bem acompanhado pelo Fontes Rocha e pelo Pedro Leal.  
Em Janeiro de 1970, Amália parte para Roma para actuar no Teatro Sistina em Roma. O sucesso foi tal que o fenómeno "Amália" se espalha por Itália. Começava então "La Folia per La Rodrigues".
Comecei a frequentar a Itália, a Itália, a Itália toda. Corri a Itália toda de ponta a ponta. Inclusive aquela história da Sicília e da Calábria e da Sardenha, por todo o lado. Até Triestre, ... não houve uma terra quase onde eu não cantasse, só se não houvesse um teatro, e foi um sucesso muito grande.
Sem se limitar às grandes cidades, Amália percorre toda a Itália, triunfando em locais onde habitualmente muitos cantores italianos não actuam. Nestas longas tournées, Amália chega a dar mais de 80 espectáculos por temporada.
Sempre com grande sucesso, Amália actua nos mais prestigiosos palcos italianos como o Teatro Lírico de Milão.
Esta loucura está longe de ficar por Itália.
Recebe do presidente da República, Américo Thomaz, a Ordem Militar de Santiago de Espada, grau de oficial. O estado francês concede-lhe a Ordem das Artes e das Letras, grau de cavaleiro.
Edita o álbum “Amália e Vinícius”, gravado ao vivo em sua casa e composto por fados interpretados por Amália, acompanhados à guitarra e à viola, e poemas declamados pelo poeta brasileiro da bossa nova, Vinícius de Moraes, e por José Carlos Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira e Natália Correia.
Em inícios da década de 1970, Amália canta pela primeira vez em Tokyo, e também o Japão, apesar de tão longínquo e com uma cultura tão diferente, se rende ao fascínio de Amália . Desde então sucedem-se as tournées pelo Japão abrangendo várias cidades. Todos os seus discos são editados nesse país, que com ela tanto se identifica. É frequente, quando Amália parte para o Japão todos os seus espectáculos estarem já esgotados, lançando assim Amália, uma verdadeira ponte cultural entre Portugal e o Japão.
A loucura deu-se, porque já estavam ... quando eu cheguei ao Japão, já estavam loucos por mim. Fiz um disco ao vivo que se vê perfeitamente como aquela gente me recebeu. * Aliás o Japão, vê-se perfeitamente, o primeiro vídeo que eu tive foi do Japão, o primeiro CD foi do Japão, o primeiro disco Laser foi do Japão, quer dizer o Japão faz sempre as coisas  primeiro  do que cá, * Mas, os japoneses gostam muito de mim.
Edita o segundo álbum de folclore com orquestra, “Amália canta Portugal II”; é também o ano de “Oiça lá ó senhor Vinho” e do LP “Cantigas de Amigos” onde Ary dos Santos e Natália Correia participam declamando poesia medieval portuguesa acompanhada à guitarra e à viola.
Lança “Amália canta Portugal III”, também conhecido por “Folclore à Guitarra e à Viola”, folclore português com acompanhamento de guitarra e viola, e grava nos estúdios da Valentim de Carvalho, 12 fados com o saxofonista de jazz Don Byas.
Em 1972 no Brasil, estreia-se no Canecão do Rio de Janeiro "Um Amor de Amália", onde pela primeira vez, num espectáculo organizado, Amália canta e conta histórias da sua vida. Tanto é o sucesso que, o show é repetido no ano seguinte. Esse espectáculo, onde Amália é acompanhada para além da guitarra e da viola, por uma orquestra e um coro, foi gravado em disco.
É finalmente editado o álbum “Encontro – Amália e Don Byas”. Sai também a lume o duplo-álbum “Amália no café Luso”, com o registo até aqui inédito de uma apresentação ao vivo de Amália naquele recinto lisboeta nos anos 50.
No dia 25 de Abril de 1974 dá-se a revolução que derrubou o regime fascista que há 48 anos governava Portugal. Amália, devido a um contrato que tinha para actuar na televisão espanhola, partiu para Madrid no dia seguinte. Em Lisboa, a grande popularidade internacional de Amália fez que de imediato circulassem boatos que a ligavam ao regime deposto. Embora só ligeiramente prejudicando a sua carreira, estes boatos afectaram gravemente a sensibilidade de Amália.
Apesar destes boatos, Amália aparece logo no Coliseu onde 5 mil pessoas a aplaudem de pé, provando que o seu público nunca a abandonou. A partir dessa altura, faz as mais longas tournées por Portugal, e o seu sucesso internacional continuou a aumentar fazendo tournées por todo mundo

1975-1999

Em 1976 são editados “Amália no Canecão”, álbum ao vivo que regista parte do show de Amália naquele palco brasileiro em 1973, e “Cantigas da Boa Gente”, compilação de material lançado anteriormente em singles e Eps. Também neste ano canta no Théâtre de Champs Elysées, em Paris. É publicado pela UNESCO o disco “Le cadeau de la vie”, onde figura ao lado de Maria Callas, John Lennon, Yehudin Menuhim, Aldo Ciccolini, Gyorgy Cziffra e Daniel Barenboim.
No ano de 1977 editadas mais duas compilações – “Fandangueiro” e “Anda o Sol na Minha Rua” – de um novo single de Alberto Janes, “Caldeirada”, e de “Cantigas numa língua antiga”, primeiro álbum de material original de Amália em três anos, embora dele façam parte alguns temas já anteriormente registados pela fadista, aqui gravados em novas versões. Neste ano volta ao Carnegie Hall de Nova York.
Em  1980, Amália edita “Gostava de ser quem era”, o seu primeiro álbum de material inédito em três anos, composto por dez fados originais com letras da própria Amália, escritas em sua casa durante a convalescência de uma doença.
Durante anos, o sentimento fatalista de Amália leva-a considerar como mortal uma doença que de todos esconde. Nesse período de profunda tristeza, Amália grava dois discos inteiramente com versos seus, "Gostava de Ser Quem Era" e "Lágrima". 
Esse é um disco que eu gosto muito. Sabe porquê? Foi um disco que me apanhou numa altura muito triste da minha vida que  ali nota-se uma voz com uma tristeza, que é uma tristeza só, sem voltinhas sem nada, é uma tristeza cá de dentro, que é, Gostava de Ser Quem Era. Gosto muito do Grito (pausa), isso é outra coisa que eu fiz tristíssima ....
Estava doente aqui dum tumor e estava convencida que ia morrer ou que me ia matar ... mas não deu resultado porque eu não fui capaz de me matar ...
Também em 1980 recebeu do Presidente da Republica  a condecoração de grande oficial da ordem do infante D. Henrique. Logo em seguida é homenageada pela Câmara de Lisboa.
Amália edita, em 1982, com poucos meses de intervalo, “O senhor extra-terrestre”, um maxi-single com duas canções de Carlos Paião, e “Fado”, um novo álbum de estúdio composto exclusivamente por novas gravações de composições de Frederico Valério, muitas delas criadas por Amália. O álbum atinge o 5º lugar do top de vendas de álbuns compilado pela revista Música & Som.
Em 1983, é editado o álbum “Lágrima”, composto por 12 originais gravados durante 1982 e 1983, de novo com letras suas. Será o seu último disco de material inédito até à edição de “Obsessão”, em 1990.
É editado, em 1984, “Amália na Broadway”, que reúne oito standards de musicais americanos gravados por Amália em 1965 nos estúdios de Paço de Arcos com o maestro inglês Norrie Paramor, mas nunca antes editados em disco. As gravações haviam sido pensadas para um álbum de standards americanos que nunca veria a luz do dia. O álbum atinge o 17º lugar do top oficial de vendas de álbuns.
A 19 de Abril de 1985, Amália dá o seu primeiro grande concerto a solo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Foi meu primeiro recital sozinha, a primeira vez em Portugal, o que eu tenho feito há anos e anos lá fora, no estrangeiro. E na minha terra nunca tinha feito nenhum. O primeiro espectáculo foi uma maravilha dum estrondo!  E nunca vi aplausos como aqueles! Que aqueles eram de calor humano. * Duraram tempo e tempo e tempo, até com os pés. Era um coisa que parece que o Coliseu vinha abaixo. * Havia uma comunhão total comigo e com o público era uma coisa extraordinária. Aquilo ... eu nunca mais vejo aquilo!
O sucesso do Coliseu repete-se em Paris onde Amália é condecorada pelo Ministro da Cultura Jack Lang, com o mais alto grau da Ordem das Artes e das Letras. E de Paris de novo parte para o mundo.
Em Julho é editado o duplo álbum “O melhor de Amália – Estranha forma de vida”, que reúne 24 dos mais populares e aclamados fados de Amália e atinge o 1º lugar do top de vendas, mantendo-se oito meses no top e vendendo para cima de 100 mil exemplares. Na sequência do êxito, é editado um segundo álbum compilação, “O melhor de Amália volume II – Tudo isto é Fado”, que ultrapassa as 50 mil cópias vendidas e atinge o 2º lugar do top.
A partir de 1985, o dia 6 de Outubro, em Toronto, no Canadá, passa a ser o dia oficial de Amália Rodrigues.
Em 1987, é editada a biografia oficial de Amália, “Amália – Uma biografia”, por Vítor Pavão dos Santos, director do Museu Nacional do Teatro, jornalista e talvez o maior admirador de Amália em território português. Este livro tornou-se numa imprescindível  referência para quem queira conhecer melhor a artista e tem sido a base de muito do trabalho jornalístico sobre Amália, inclusivamente deste site. O primeiro CD de Amália é editado em Portugal: “Sucessos”, uma compilação concebida originalmente para o mercado internacional, e que apenas ficará em catálogo até se iniciar a transferência para CD dos vários álbuns de Amália.
É também lançado neste ano, o triplo-álbum de luxo “Coliseu 3 de Abril de 1987”, que regista na íntegra o concerto de Amália no Coliseu de Lisboa naquela data. Obtém o Disco de Ouro e atinge o 13º lugar dos tops.
Em 1989, comemorando os 50 anos de carreira de Amália, a EMI-Valentim de Carvalho edita “Amália 50 anos”, uma colecção de oito duplos-álbuns ou CD´s temáticos agrupando muitas das gravações de Amália para a companhia, entre os quais várias raridades e gravações inéditas.
Em Portugal sobre o patrocínio do Presidente da Republica Mário Soares, de quem recebe a Ordem Militar de Santiago de Espada, as comemorações são um verdadeiro acontecimento a nível nacional. Festas, condecorações, exposições, tudo para Amália não é demais. Estas festividades, prolongam-se numa grande tournée mundial. - LISBOA, MADRID, PARIS, ROMA, TEL AVIV, MACAU, TOKIO, RIO DE JANEIRO, NOVA IORQUE
A importância das palmas é o que me mantém viva, um bocadinho viva, a maior alegria que eu tenho é quase sempre no palco.
Agora, há uma coisa que eu tenho; é um grande respeito pelo público, e podem ficar ... já o pressentiram, porque não há um artista que tenha uma amor tão grande do público, se não sente que ele é honesto! Já tinha envelhecido muito mais, não só na cara mas como em tudo ... na cara eu não tenho culpa nenhuma, isto acontece a toda a gente! Portanto é natural. Não é dos meus erros. Agora nunca cantei a enganar ninguém, fazendo uma coisa agora aqui forçada. Sou uma pessoa autêntica, que se deu completamente ao público e é por isso é que o público se dá completamente a mim.
Também nesse ano é recebida pelo Papa, no Vaticano, em audiência privada.  
1990 vê ser editado “Obsessão”, o primeiro álbum de material original e inédito de Amália em sete anos, composto por temas gravados durante o interregno.  
É editada, em 1991, a cassete de vídeo “Amália live in New York City” registo do concerto no Town Hall de Novembro de 1990. Recebe do presidente francês, François Miterrand, a Legião de Honra.
Em 1992 é editado o CD “Abbey Road 1952”, que reúne a totalidade das primeiras gravações realizadas por Amália para a Valentim de Carvalho nos estúdios de Abbey Road em Londres.
Em 1995, é editada pela primeira vez em CD a compilação “Estranha forma de Vida – O melhor de Amália” e a RTP transmite, ao longo de uma semana, a série documental “Amália – uma estranha forma de vida”, cinco episódios de uma hora dirigidos por Bruno de Almeida incluindo muitas imagens de arquivo provenientes dos cinco cantos do mundo e nunca antes exibidas em Portugal. Neste ano é ainda editado “Pela primeira vez – Rio de Janeiro”, CD que reúne as 16 gravações que Amália realizou no Rio de Janeiro em 1945 para a editora Continental. É a primeira edição oficial em CD destas gravações, há muitos anos indisponíveis em Portugal, restauradas digitalmente em Londres, nos estúdios de Abbey Road.
“Segredo”, um álbum com gravações inéditas realizadas entre 1965 e 1975, é editado em 1997.
Falecimento do seu marido, César Seabra, após 36 anos de casamento.
Publica um livro de poemas “Versos” na editora Cotovia.
Nova homenagem nacional na Feira Mundial de Lisboa Expo98.

Amália diz:

Foi uma estranha forma de vida porque eu não fiz nada por ela, foi por vontade de Deus, não é? "Que eu vivo nesta ansiedade, que todos os ais são meus que é tudo minha a saudade, foi por vontade de Deus". Já isto fiz com trinta anos! Quer dizer já eu pressentía que tinha sido Deus que me tinha feito o destino, que me tinha marcado o destino, que me deu uma natureza para a qual eu nasci, ... nasci com esta obrigação de cantar fado! Ou foi o fado que fez isto! O fado é destino, portanto deu-me este destino a mim!
Quando eu morrer váo inventar muitas histórias sobre mim, se inventaram sobre a severa e não se sabe se ela existiu, e de mim sabem concerteza que eu existi
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ImageFadista que aparece nos anos 60, com uma forma e um estilo muito próprio de cantar o Fado.
Aparecia e cantava nos locais onde acontecia Fado, boémio e bem disposto, pela sua simpatia e cortesia tinha facilidade em fazer amigos.
Penso que a sua estreia como profissional, foi pela mão de  João Ferreira Rosa, que o contratou  para actuar no  Embuçado. Mais tarde foi um dos sócios fundadores do Sr. Vinho, conjuntamente com José Luís Gordo e Maria da Fé.
Gravou alguns EP, mas a sua carreira acabou por ser curta, pois  um  trágico acontecimento, levou a que viesse a  falecer prematuramente.
in: “Lisboa no Guiness” by Victor Marceneiro 
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ImageNascido nas faldas da Serra da Estrela de uma família de 12 irmãos, António Menano foi sem sombra de dúvida o mais conhecido e popular cantor de fados de Coimbra.

Tal como Hylário, o fabuloso cantor boémio seu antecessor, também António Menano cedo se tornou ídolo da Academia, enriquecendo o espírito estudantil de Coimbra e a lenda coimbrã de uma certa boémia própria da juventude, de fados e serenatas, misto de arte e romantismo, de sonhos e ilusões.

António Menano está tão intimamente ligado ao fado de Coimbra e este a ele que verdadeiramente se não pode dissociar um do outro; falar de António Menano é falar do fado de Coimbra e da chamada década de oiro.
Segundo nos conta João Seabra(Nº 56, de JAN/FEV de 1944, da Revista Turismo), a lembrança e a saudade de Hylário foram esmorecendo com o tempo mas as guitarras eos cantadores continuaram a ouvir-se no Mondego.

Um dia todos os rouxinóis se calaram para ouvir um outro que erguia mais alto os seus harmoniosos trinados, o estudante António Menano. Mais nos conta que a recordação do seu nome traz à memória a loucura que se apossou de Coimbra e, depois, de Lisboa e de todas as terras do País, para ouvirem a sua voz de tenor.

Diz-nos ainda que iam a Coimbra milhares de pessoas só para o ouvir cantar e, em Lisboa, nalgumas festas em que participou, mesmo em recintos de grande lotação como o Coliseu e o Jardim Zoológico, os bilhetes se esgotavam e a ansiedade para o ouvir era enorme, tendo-lhe sido prestadas ovações”como raras vezes se fizeram às maiores celebridades líiricas”.

O DR. João Falcato vai até mais longe e afirma que essas ovações apoteóticas nunca se fizeram às maiores celebridades líiricas(In Coimbra dos Doutores, 1957, pág.169).

Os chamados Irmãos Menano(Francisco, Horácio, António e Alberto) constituiram a mais famosa e fecunda plêiade de finos artistas que passou por Coimbra, precedida no final do séc. anterior por outros dois Menanos,José Paulo Menano e Paulo da Costa Menano(ambos formados em Direito, em 1901 e 1903, respectivamente) que se notabilizaram em récitas e outras actividades artisticas.

Matriculado na Universidade, António Menano vê despontar a sua estrela em Março de 1915, quando canta um fado em Aveiro, num sarau organizado pela Associação Académica de Coimbra, com a participação da Tuna e do orfeon.

É nesse ano lectivo de 1914-1915 que se procede à reorganização do Orfeon Académico, agora sob a regência do saudoso Dr. Elias de Aguiar e onde António Menano se torna solista e ensaiador do naipe dos lºs tenores, passando também a cantor ”titular” de fados e canções nos saraus e outros espectáculos e actividades que se realizavam.

Talves seja importante abrir aqui um pequeno parêntesis para referir que o seu irmão Francisco, exímio guitarrista e excelente compositor, fôra, anteriormente e até concluir o curso de Direito em 1912, ensaiador do naipe dos 2ºs tenores do Orfeon, quando este era dirigido por António Joyce, e que um dos guitarristas que habitualmente acompanhava António Menano era, além de Paulo de Sá, Alberto Menano, seu irmão. Um outro guitarrista que por vezes também o acompanhou foi o seu irmão Horácio. Nos anos 20. Artur Paredes foi também um dos seus acompanhantes habituais.

No final desse mesmo ano lectivo, em 10 de Junho de 1915, na festa de homenagem a Camões promovida pelos alunos do Liceu José Falcão, de Coimbra, António Menano foi convidado a participar e, em vez dos habituais fados, surge a cantar um trecho de ”Os Lusiadas” que fôra musicado pelo já referido Dr. Elias de Aguiar.

É também em 1915 que surge a primeira edição musical com fados da autoria de António menano, ”Os três mais lindos fados de Coimbra”, publicada pela Livraria Neves, à Rua Larga, com o fado ”D’um olhar”(”As meninas dos meus olhos”), de Alexandre de Resende, dedicado ”ao António Menano”, com quadras populares, sendo os outros fados da autoria de António menano, o ”Fado da Morenas”(”Todos gostam das morenas”), dedicado ”ao Estevão Neto”, com uma quadra popular e três outras de Fernando Correia, e o ”Fado da Noite”(”Há quem diga que quem chora”), dedicado ”ao J.Gamboa, com cinco quadras de Alfredo Fernandes Martins.

No ano lectivo de 1915-1916, em Fevereiro, na excursão do Orfeon Académico ao Porto, Braga e Vila do Conde, António Menano consagra-se definitivamente como estrela de 1ª grandeza do meio artístico coimbrão, acompanhado à guitarra por Paulo de Sá e Alberto Menano.

Os anos de 1917, 1918 e 1919 constituem um periodo relativamente morno em termos de ”Fados e Guitarradas”, contribuindo talvez para isso o artigo de Manuel da Silva Gaio, ao tempo Secretário da Universidade, publicado na Ilustração Portuguesa de 29-04-1918, pedindo aos estudantes para não cantarem o ”venenosos cogumelo do fado, produto originário da viela urbana” e, em vez disso, entoarem as cantigas populares do Orfeon.

Curiosamente, este periodo coincide de certo modo com o facto de António Menano ter passado a cantar canções acompanhadas ao piano, em vez dos tradicionais fados que haveriam de ser profusamente divulgados e conhecidos através dos discos de 78 RPM, de edições musicais impressas e de rolos para auto-pianos, consagrando definitivamente para a posteridade o seu nome e o registo da sua voz.

Em 1918 António Menano passa a integrar a Direcção do Orfeon Académico e nas Fogueiras de S.João desse ano novamente canta canções populares portuguesas, com muito agrado e satisfação dos presentes, e não fados.
Em Dezembro de 1919, a Associação Académica de Coimbra promove um sarau musical no Teatro Avenida, organizado pelo próprio António Menano, no qual também participa e cujo programa não contem qualquer fado ou guitarrada. E no sarau promovido pelo Orfeon e a Tuna no Teatyro Sousa bastos também não haveria fados nem guitarradas.

No final de 1919 surge a primeira proibição de se fazerem serenatas: A imprensa local reage contra esta medida policial e a proibição, em vez de acabar com os fados e as guitarras, provoca aparentemente o seu resurgimento.

Entretanto vem a lume uma colecção de edições musicais do ”reportório do Orfeon da Universidade”, com fados de António Menano(”Patriótico”, ”Da Granja”, ”Das Romarias”, ”Do Choupal”, ”Dos Passarinhos” e ”Morena”) que alcançaram enorme sucesso, tendo quase todos eles ”atingido a 4ª edicção antes de 1923, fados que também foram gravados em rolos para auto-piano.

Em Abril de 1923, António Menano, já casado mas ainda não formado, participa na digressão do Orfeon e da Tuna a Espanha, actuando em Salamanca, Madrid e Valladolid. No Monumental Praça de Madrid, na presença dos Reis de Espanha e encontrando-se a praça completamente cheia, António Menano obteve um retumbante sucesso repetindo os fados várias vezes, inclusivé a pedido do Rei, sendo de notar que apesar de não dispôr de qualquer amplificação sonora, a sua voz encheu a praça de toiros, ouvindo-se perfeitamente nos seus famosos ”pianissimos”, tal o silêncio em que era escutado. A acompanhá-lo estiveram, como sempre, Paulo de Sá e Alberto Menano.

Em Junho de 1924, o Orfeon Académico segue para Paris, onde actua no Trocadero, realizando depois saraus em Toulouse, Bordéus e Bayona. António Menano toma parte na digressão, cantando fados com Agostinho Fontes, acompanhados à guitarra por Manuel Paredes, outro grande guitarrista da época, tio do célebre Artus Paredes.

Concluido o curso de medicina, António menano passa a exercer clinica em Fornos de Algodres, terra natal da família Menano e onde seus pais, António da Coista Menano e D. Januária Paulo Menano, residiam. Embora já formadso, continua muito ligado à vida artistica e académica de Coimbra, onde certas tradições estudantis se revitalizam.

António Menano tornar-se-ia definitivamente o cantor de Coimbra mais conhecido e de maior fama em todo o País com as gravações que fez entre os anos de 1927 e 1929, em Paris, Lisboa e Berlim, para a Companhia Odeon de Paris. De todos os cantores da chamada década de oiro da Academia de Coimbra, António Menano foi aquele que mais discos gravou e maior e mais estrondoso sucesso alcançou.

Essas séries de discos têm etiquetas de cores diferentes, lilás, azul,escuro e dourada(alguns discos, muito poucos, têm etiqueta vermelha), tendo sido produzidas muitas e muitas dezenas de milhares de discos que se vendiam ainda depois da II Guerra Mundial. No Brasil, com base nessas mesmas gravações realizadas por processos mecânicos, foi feita pela Trans-Oceanic Trading Company para a Casa Edison do Rio de Janeiro a reprodução, já por processos eléctricos, da maior parte dessa gravações, discos esses a que foi aposta a etiqueta Odeon de côr azul forte e que tiveram muito boa venda.

Pena é que o seu espantoso talento de cantôr não se possa aquilatar muito bem através dos discos pois, além das gravações terem sido efectuadas por processos mecânicos, os acompanhamentos de guitarra e viola são, de uma maneira geral, francamente modestos.

Em 1929, por ocasião da célebre Exposição Ibero-Americana de Sevilha, o Dr.António Menano, apesar de já ter concluido a formatura Há alguns anos, foi o cantor escolhido para a ”embaixada artistica” enviada pela Academia de Coimbra para actuar no festival oferecido aos Reis de Espanha aquando da inauguração do Pavilhão de Portugal e que era constituida por mais três elementos: Artur Paredes, solista e acompanhador, Afonso de Sousa, 2ª guitarra, e Guilherme Barbosa, viola.

Anos depois, em 1933, abandonando voluntáriamente a sua meteórica e impressionante carreira artística, que fôra a mais prometedora da década de oiro(1920-1930), o Dr. António Menano parte para Moçambique onde exerce clinica durante quase trinta anos, pois só em 1961 regressaria definitivamente. A sua última residência foi na Rua José Falcão, nº 57, 5º Esquerdo, em Lisboa, onde viria a falecer.

Entre as actuações de António Menano depois da sua ida para Moçambique podemos destacar as seguintes, já que ele continuaria preso para sempre ao seu passado coimbrão:
- Em Outubro de 1956, em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, na Tapada da Ajuda, no célebre recital que deu, já sexagenário,, e que constituiu um êxito retumbante. O espectáculo estava marcado para a meia-noite, começou às duas horas da manhã e só viria a terminar de madrugada sem que ninguém tivesse arredado pé. Do Diário de Notícias de 23-10-1956 respigamos o seguinte: ”Até madrugada alta, com um céu em que a Lua e as estrelas paradas pareciam acercar-se da Terra, no sortilégio das canções de Menano ressurgiu Coimbra de há quatro décadas.” Conclui dizendo:”Sem luz eléctrica nem microfones a voz de Menano, casada coma das violas e das guitarras, brindou Lisboa com uma noite inesquecivel, única. Espectáculo imprevisto e verdadeiramente sensacional...”

De tempos a tempos aparecia em Coimbra e acabava sempre por cantar fazendo-o em qualquer sitio, desde que isso se proporcionasse; uma noite acabou por cantar nas escadas da secular Igreja de Santa Cruz, ”Feita de Pedra Morena”, perante o entusiasmo e admiração da multidão que ali logo se juntou e que obrigou a parar o trânsito.

Em 1967, dois anos antes da sua morte, teve ainda duas brilhantes actuações que foram bastante noticiadas e ficaram na lembrança. A primeira em Coimbra, na madrugada de 24 de Junho, do alto das escadarias da Sé Velha, por ocasião da reunião do Curso Juridico de 1907-1912, de que fazia parte o Dr. Francisco menano, seu irmão, na serenata monumental que ali teve lugar com a participação de três cantores de uma nova geração, José Manuel dos Santos, António Bernardino e Luiz Góes. António Menano, que veio cantar quatro fados, provocou a maior admiração pela forma maravilhosa como um septuagenário conseguia cantar assim.

A sua última actuação pública teve lugar em 16 de Dezembro por ocasião da inauguração em Lisboa da Galeria Rodin, do Pintor Mário Silva, que reuniu muitos antigos estudantes de Coimbra, entre os quais Luiz Góes, Jorge Tuna, João Bagão, Aurélio Reis, Tossan e Vitorino Nemésio. António Menano cantou duas das suas melhores interpretações, o ”Fado dos Passarinhos” e o ”Fado da Ansiedade”.

António Menano morreu em 11 de Setembro de 1969 mas a sua memória perdura na nossa lembrança, e a saudade da sua voz pode ser algo mitigada ouvindo os discos que nos deixou
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ImageNascido em 1936, no Montijo, António Mourão parece destinado a uma vida de operário. O seu gosto pelo canto revela-se quando decide aproximar-se do mundo dos fados, em Lisboa. Assistindo a espectáculos na Parreirinha de Alfama, põe-se um dia espontaneamente a cantar. É um sucesso e fica logo ali contratado.
Em 1965 estreia-se na revista E Viva o Velho. Canta Ó Tempo Volta p'ra Trás, no teatro Maria Vitória. O impacto da canção levará verdadeiras excursões de todo o país ao Parque da Revista E Viva o Velho Mayer.  Será número um de vendas e um êxito que perdura na memória colectiva.
De personalidade tímida e reservada, António Mourão será um dos ícones dos anos sessenta.
António Mourão está retirado há uns anos e está internado na Casa do Artista combatendo alguns problemas de saúde.

In http://www.macua.org
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ImageUm dos casos raros de artista que não se limitava a interpretar mas igualmente compunha - e muito! - Artur Ribeiro escreveu alguns dos maiores clássicos da música ligeira portuguesa, como A Rosinha dos Limões, Nem às Paredes Confesso ou A Fonte das Sete Bicas.
Natural do Porto, onde nascera em 1924, Artur Ribeiro gostava de cantar em miúdo mas o seu temperamento tímido fazia-o cantar escondido atrás de uma cortina. Em 1940, a família muda-se para Lisboa e é aqui que o seu talento é descoberto: num baile organizado pelo Clube Radiofónico de Portugal, Artur Ribeiro começa a trautear enquanto dança com uma jovem que queria impressionar, sendo imediatamente notado pelo director de programas da estação, que o convida a actuar numa festa em honra do Cônsul do Brasil. Nessa festa, por seu lado, Ribeiro é abordado por um dos responsáveis da Rádio Peninsular para se juntar ao elenco daquela emissora como tenor lírico.
Empregando-se para não sobrecarregar o orçamento familiar, Artur Ribeiro vai subindo profissionalmente, passando inclusive a produtor de emissões e começando a compor as suas primeiras canções. Em 1944, estreia-se profissionalmente num espectáculo da Esplanada da Voz do Operário, ao lado de Amália Rodrigues, e em seguida estreia-se no teatro na Revista Internacional de 1945 no Coliseu dos Recreios, partindo em seguida para o Porto para substituir Luiz Piçarra na opereta A Chave do Paraíso.
Em 1946 estreia-se na Emissora Nacional e, no ano seguinte, enfrentando um mau momento profissional, aceita ser cantor da Orquestra do Casino Estoril, iniciando uma nova fase da sua carreira. Modulando a sua voz para a canção ligeira, torna-se um aplaudido vocalista da noite lisboeta, transferindo-se do Casino para o Conjunto de Mário Teixeira, pianista com quem começa a compor regularmente. Em 1948 conhece Max, para quem virá a escrever alguns dos seus maiores sucessos -como Ilha da Madeira - e, em 1949, ganha o seu primeiro prémio como compositor com Canção da Beira.
A par com a sua carreira de cantor, impõe-se como compositor, com êxitos como Rosinha dos Limões (que originará em 1954, uma opereta de grande êxito), Maria da Graça, Adeus Mouraria, Pauliteiros do Douro ou A Fonte das Sete Bicas. Em 1965, contabilizava 300 canções de sua autoria exclusiva e 700 letras feitas para melodias suas e de outros. Max, António Calvário, Rui de Mascarenhas, Madalena Iglesias, Júlia Barroso, Tristão da Silva, Simone de Oliveira ou Maria José Valério gravaram canções de Artur Ribeiro.
Presença regular nos programas radiofónicos da APA, grava os primeiros discos em 1953 e passa igualmente pela televisão (onde se estreia em 1957) e pelo cinema (escrevendo a música de O Miúdo da Bica, com Fernando Farinha, onde participou igualmente como actor). Participou igualmente em muitos programas de variedades em Espanha. Faleceu em 1982

In http://www.macua.org
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ImageBerta é a fadista de referência da "época de ouro" do fado, a cantadeira que "chegou, cantou e venceu" e que foi desde logo considerada a "loucura dos fadistas". Canta pela primeira vez, em público, no Salão Artístico de Fados, acompanhada por Armandinho; o sucesso é tal que é de imediato convidada para integrar o elenco da casa, o que não vem a concretizar-se em virtude de ter apenas 16 anos. Vai, no entanto, a Espanha gravar o seu primeiro disco e em 1930 é notícia de primeira página da Guitarra de Portugal, de 30 de Outubro. Ali se refere que Berta Cardoso é "um nome consagrado", é "uma vocação que se revelou expontânea e claramente desde a sua estreia".

Dotada de um estilo e de uma capacidade interpretativa singulares, Berta Cardoso tinha uma dicção irrepreensível e uma voz privilegiada, tendo ficado conhecida como "A voz de oiro do fado". A sua ascensão artística é meteórica, passando, de imediato, do anonimato a primeira figura da canção nacional. Durante as décadas de 30, 40 e 50, tem uma notável carreira que divide entre os palcos das casa de fado e dos teatros de revista, a nível nacional e internacional; a partir da década de 60, opta por actuações mais intimistas, confinando-se quase exclusivamente às casas de fado.

Durante a sua longa carreira, Berta Cardoso criou inúmeros êxitos, tendo gravado para várias editoras discográficas, entre elas a Valentim de Carvalho, a Odeon, a Columbia, a Capitol, a Imavox... Sempre com edições esgotadas, restam alguns 78RPM e vinil, nas mãos de particulares/ coleccionadores. No mercado habitual, apenas na loja do Museu do Fado e na Discoteca Amália , se pode adquirir o CD da etiqueta Estoril que reproduz seis dos seus maiores êxitos: Fado Antigo, Fado Faia, Chinela, Meu Lar, Cinta Vermelha e Cruz de Guerra, sendo a letra, dos 5 primeiros fados, da autoria de João Linhares Barbosa e a letra do 6º fado, de Armando Neves.

Existe ainda, no circuito comercial, um outro CD, editado pela Movieplay Portuguesa, o nº 20 da colecção Fados do Fado, com 4 fados de Berta Cardoso: Cruz de Guerra, de Armando Neves, Meu amor fugiu do ninho e Noite de São João, ambos de J. Linhares Barbosa e Testamento, de João Redondo.

In wikipedia
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ImageGenuíno e típico alfacinha a todo o pano, Carlos Ramos, com agradabilíssimo pendor romântico, foi um dos intérpretes de Fado mais benquistos perante o genérico auditório português. Possuidor de uma voz harmoniosa e quente, que dominava como queria, sob postura tranquilamente modesta e discreta, conseguiu lançar-se numa carreira artística a tempo integral, no decurso da qual protagonizou grandes êxitos, sobretudo no início da década de sessenta, divulgado através da rádio com frequente apreço. De rua em rua ouvia-se toda gente entoar: "Não venhas tarde..."

Contudo - e do pormenor poucos têm memória - apesar da sua apetência pelo Fado vir desde criança, só muito tarde, e afinal ainda a tempo, abraçou o exercício profissional. Carlos Ramos apreciava fruir o Fado pelas tasquinhas de Alcântara, típico bairro lisboeta onde nasceu em 1907, tendo sido como guitarrista acompanhante que iniciou a sua lide fadista, uma vez que tinha aprendido a tocar guitarra portuguesa na adolescência, enquanto também satisfazia os estudos liceais. Ainda chegou a estudar medicina, mas a inopinada morte do pai, então com 18 anos, obrigou-o a ter de procurar imediato trabalho para sustentar a família. Em pronto recurso, dedicou-se à rádio-telegrafia, especialidade que aprendera durante o serviço militar e na qual logrou profissionalizar-se para ganhar a vida. Todavia, continuou a tocar e a cantar nas horas vagas, estabelecendo uma excelente parceria com Ercília Costa numa digressão que ambos efectuaram pelas Américas.

Distinguindo-se como intérprete que se acompanhava a si próprio à guitarra, a conselho de Filipe Pinto, cerca de 1944, estreou-se no Café Luso, no Bairro Alto, criando então "Senhora do Monte", o seu primeiro grande sucesso. A dado passo da sua carreira, Carlos Ramos optou por dedicar-se em exclusivo ao Fado-canção, género à época muito utilizado nos palcos da Revista-à-portuguesa. Daí os seus rotundos êxitos em "Não venhas tarde" e "Canto o Fado".

Frequentador assíduo das casas típicas de Lisboa durante as décadas de quarenta e cinquenta, participou com eneorme agrado no teatro de revista e em filmes. Em 1952, tornou-se artista exclusivo do retiro típico "A Tipóia", ao lado de Adelina Ramos. Sete anos adiante, em 1959, decidiu abrir a sua própria casa, "A Toca", experiência que veio a durar muito pouco. Um problema cardíaco ocorrido em meados da década de sessenta obrigou-o a terminar com a sua vida artística, tendo falecido alguns anos mais tarde, em 1969.
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ImageNascido na Parede, a 29 de Setembro de 1950, Carlos Zel inicou a sua carreira profissional em 1967. A primeira apresentação aconteceu, um ano depois, na Emissora Nacional. Fez teatro de revista e musical - ”Aldeia da Roupa Suja” (1978), ”A Severa” (1990) e ”Ai Quem Me Acode” (1994) -, cantou em várias casas de fado e actuou nos casinos, com destaque para o Casino Estoril, tendo sido o primeiro fadista masculino a ser contratado para uma temporada naquela sala.

Apresentou-se em alguns programas de televisão e chegou a participar na telenovela ”Cinzas” (RTP), como actor.

Sócio-fundador da Academia da Guitarra e do Fado, foi distinguido, em 1993, com o Prémio Prestígio, atribuído pela Casa de Imprensa. Quatro anos depois, a mesma entidade concedeu-lhe o Prémio José Neves de Sousa. Foi ainda condecorado com a Medalha de Mérito da Cruz Vermelha Portuguesa e com a da Câmara Municipal de Cascais.

Durante mais de 30 anos de carreira, Zel levou a sua voz e a sua forma de cantar o fado pelo mundo fora, nomeadamente, a Espanha, França, Holanda, Escócia, Dinamarca, Noruega, Brasil, Argentina, Chile, Venezuela, Canadá, EUA e Senegal.

Muitos foram os artistas que dividiram o palco com o fadista, de Maria João e Mário Laginha ao ex-Trovante Luís Represas, passando pela cabo-verdiana Cesária Évora e Argentina Santos.
Faleceu repentinamente em Fevereiro de 2002.
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ImageTalvez poucas pessoas saibam que esta figura tão típica da cidade de Lisboa e da sua memória nasceu, afinal, no Barreiro, em 1928. O seu pai, barbeiro, decide tentar a sorte na capital e, com 8 anos, o pequeno Fernando vem viver para o bairro do Bica.
 
No ano seguinte canta pela primeira vez em público, num concurso entre bairros. Triunfante, com alcunha logo ali ficou: o "Miúdo da Bica". Com 11 anos, por morte o pai, torna-se profissional do fado, para o que foi precisa licença especial. Apoiado pelo conhecido empresário José Miguel, vai ganhar 50 escudos por noite no Café Mondego. Pela mão de Fernando Santos, jornalista e autor, entra ainda criança no Teatro de Revista (Boa Vai Ela), na qual se estreia, igualmente, Laura Alves. Aufere 100 escudos por noite. Assim ampara a família.O percurso das casas de fados será o seu destino nos anos que se seguem: Retiro da Severa, Solar da Alegria, Café Latino. Com 23 anos vai pela primeira vez ao Brasil. Aí estará durante quatro meses, actuando nas rádios Tupi e Record, de São Paulo. Ao longo de toda a década de cinquenta internacionalizará, progressivamente, a sua carreira junto das prósperas comunidades portuguesas, sobretudo do Brasil.
 
Em 1957 é nomeado "A Voz mais portuguesa de Portugal", pela Rádio Peninsular.
Presente na televisão desde os seus alvores, Fernando Farinha participa no programa Melodias de Sempre.
A década de sessenta é o culminar da sua popularidade. Segundo classificado em 1961, triunfa em 1962 como Rei da Rádio. No ano seguinte vence o primeiro galardão "Disco de Ouro", à frente de Calvário e de Tudela. Em 1963 ganha o Oscar da Casa da Imprensa para melhor fadista. Participou nos filmes O Miúdo da Bica e Última Pega.
Continuou a sua carreira nas décadas seguintes, actuando sobretudo para as comunidades de emigrantes. Uma das suas facetas menos conhecidas é a sua capacidade como letrista e poeta popular.

Principais êxitos:
Sou do Povo, Deus Queira, Belos Tempos, Dias Contados, Menina do Rés-do-Chão, Fado das Trincheiras, Eterna Amizade, Guitarra Triste.
Segue-se um texto do Blog Fado de Lisboa
Fernando Tavares Farinha nasceu no Barreiro em 1928. Aos 7 anos já cantava nas casa tipícas de fado e lhe valeu o cognome.
A sua carreira foi de 53 anos em que lançou gravações de emormes éxitos como Belos Tempos, Deus Queira, Não Isso Não, Destino Marcado, Canção de Lisboa, Fado das Trincheiras e centenas mais.
Em 1963 foi premiado Rei da Rádio e o seu sucesso encontrou-o durante as décadas de 60 e 70.
 
Foi um artista muito querido pelos emigrantes Portuguêses espalhados pelo mundo e realizou diversas digressões pelo estrangeiro e foi numa delas ao Canadá em 1984 que o conheci pessoalmente e mantive como amigo até à sua morte em 1988.
Era uma pessoa simples, nostálgica e gostava de discutir política.
Disposto para ajudar, foi um grande poeta e tocava viola aonde musicou diversos dos seus poemas.
Foi casado cerca de quarenta anos e sem filhos; morou mais de trinta anos na mesma casa na Rua Maria Pia que eu frequentei várias vezes.
Foi um dos primeiros fadistas a gravar e actuar com a presença do instrumento viola-baixo tocado pelo Joel Pina no celebrado Conjunto de Guitarras de Raúl Nery.
Foi respeitado por outros artistas afastados do fado e seus grandes amigos foram Tristão da Silva, Manuel de Almeida, Raúl Nery e António Calvário. 
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ImageCorria o ano de 1933, quando no dia 21 de Novembro, nasceu na Rua do Capelão, no coração do Bairro da Mouraria, Fernando da Silva Maurício.
Detentor de uma voz genuína e arreigado às suas raízes lisboetas, Fernando Maurício foi também um dos grandes intérpretes de fado.
O fado é uma cantiga tipicamente urbana que começou a definir-se provavelmente no segundo quartel do século XIX.
Ninguém pode afirmar ao certo como surgiu esta canção, mas decididamente criou raízes e cumplicidades com o povo de Lisboa. Ele era e ainda continua a ser cantado nas partes mais antigas da cidade, nos bairros típicos da cidade, onde dá voz aos sentimentos que surgem da vida quotidiana. É cantado na Mouraria, em Alfama, no Bairro Alto, nas vielas e recantos, em tabernas e em tascas, onde os amores e a boémia estavam ligados.
Na primeira metade do século XX, foi adquirindo grande riqueza melódica e complexidade rítmica, tornando-se mais literário e mais artístico. Os versos populares são substituídos por versos elaborados e começam a ouvir-se as décimas, as quintilhas, as sextilhas, os alexandrinos e os decassílabos.
Durante as décadas de 30 e 40, o cinema, o teatro e a rádio vão projectar esta canção para o grande público, tornando-a de alguma forma mais comercial. A figura do fadista nasce como artista. Esta foi a época de ouro do fado onde os tocadores, cantadores saem das vielas e recantos escondidos para brilharem nos palcos do teatro, nas luzes do cinema, para serem ouvidos na rádio ou em discos.
Surgem então as Casas de Fado e com elas o lançamento do artista de fado profissional. Para se poder cantar nestas Casas era necessário carteira profissional e um repertório visado pela Comissão de Censura, bem como, um estilo próprio e boa aparência. As casas proporcionavam também um ambiente de convívio e o aparecimento de letristas, compositores e intérpretes.
Os artistas que cantam o fado trajavam de negro. É no silêncio da noite, com o mistério que a envolve, que se deve ouvir, com uma "alma que sabe escutar", esta canção, que nos fala de sentimentos profundos da alma portuguesa. É este o fado que faz chorar as guitarras...
O fadista canta o sofrimento, a saudade de tempos passados, a saudade de um amor perdido, a tragédia, a desgraça, a sina e o destino, a dor, amor e ciúme, a noite, as sombras, os amores, a cidade, as misérias da vida, critica a sociedade...
Fernando Maurício foi um fadista com uma voz inconfundível que marcou uma época.
Provinha de uma família centenária daquele bairro. Com apenas oito anos começou a cantar numa taberna da rua onde morava, “O Chico da Severa”, onde também os fadistas se juntavam, após as festas de beneficência onde participavam.
Fernando Maurício lembra com saudade, momentos preciosos dos tempos de infância, em que, de madrugada, fugia de casa dos seus pais e “abria o ferrolho, abria a porta pela surdina e ia para a taberna. Eles (os artistas) iam para ali matar o bicho e de vez em quando tocavam ali um fadinho. Eu tinha uma paixão pela guitarra. Era uma loucura. Punham-me em cima de uma pipa e eu começava para ali a cantar… parecia um papagaio.”

Revelando, desde cedo, os seus dotes para o mundo do espectáculo, foi com apenas treze anos, em 1947, que se sagrou em terceiro lugar no concurso "João Maria dos Anjos", organizado no Café Latino. Nessa altura, obteve uma autorização a título excepcional da Inspecção de Espectáculos, e pôde assim dar início à sua actividade musical a nível profissional.
Ainda no mesmo ano, a 29 de Junho participa na Marcha Infantil da Mouraria, no papel de Conde de Vimioso ao lado de Clotilde Monteiro como Severa. Por esta altura trabalhava como manufactor de calçado.
Contratado pelo empresário José Miguel, cantou regularmente durante um período de três anos, aos fins-de-semana, nas casas por ele exploradas, nomeadamente Café Latino, o Retiro dos Marialvas, o Vera Cruz e o Casablanca no Parque Mayer. No entanto, quando contava dezassete anos resolveu interromper a actividade, que só retomou em 1954, no Café Luso, no Bairro Alto. Aqui, actuou já profissionalizado, bem como, na Adega Machado e na casa típica O Faia.
Nos anos 60 e 70 foi a vez de outras casas de fado de Lisboa, como a Nau Catrineta, a Kaverna, o Poeta, a Taverna d’El Rey e novamente, o Café Luso. Estas casas conquistaram novos públicos com as actuações de Fernando Maurício que seria apelidado de Rei do Fado. Nos anos 80 começou a actuar na Adega Mesquita.

Fernando Maurício cantou em programas de fados na Emissora Nacional e participou nos primeiros programas da RTP experimental, bem como no terceiro a ser transmitido.
Preferia cantar em festas de beneficência e solidariedade, por todo o país, não se preocupando muito com uma carreira discográfica. Apesar de tudo, gravou discos, dos quais se contam, para além dos fados com Francisco Martinho e da participação em várias colectâneas de fados: De Corpo e Alma sou Fadista, 1984; Fernando Maurício, Tantos Fados deu-me a Vida, 1995, Fernando Maurício, Os 21 Fados do Rei, 1997; Fernando Maurício, col. O Melhor dos Melhores, 1997; Fernando Maurício, Clássicos da Renascença, 2000.
Participou em inúmeros espectáculos no estrangeiro, nomeadamente no Luxemburgo, Holanda, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos.
Continuou sempre ligado ao bairro da Mouraria, ao Grupo Desportivo da Mouraria, a que sempre esteve ligado bem como, à marcha do bairro, aos seus amigos de juventude, aos jogos de futebol, da Laranjinha, às cantorias e aos bailaricos, que recorda com saudade: “Havia uma padaria na Rua do Capelão onde eu nasci e nós naquela altura - nos anos 40 - dormíamos todos na rua. De manhã levantávamo-nos e íamos lavar a cara ao Chafariz da Guia. Eram muitos amigos que eu tinha. Tínhamos uma equipa de futebol e jogávamos à bola na Rua do Capelão. Entre o Capelão e a Guia. Jogávamos descalços. Nessa padaria havia cestos de verga com pão quentinho, acabadinho de sair do forno. De madrugada, enquanto o padeiro trabalhava, encostávamo-nos à porta e tirávamos uns pães. Era uma época muito má. Corriam os tempos da guerra. Nós éramos 5 irmãos, depois nasceram os dois mais novos. A minha mãe era do Bonfim, do Porto. Lavava roupa para ajudar em casa”.
Foi ainda dessas memórias com um desses amigos, o poeta Mário Raínho, que saiu um dos seus fados preferidos, “O irmão da Juventude”.
Recebeu ao longo da sua vida vários prémios, dos quais se contam: Prémio da Imprensa (1969) e os Prémios Prestígio e de Carreira da Casa da Imprensa (1985/1986). Em Maio de 2001, no Coliseu, foi agraciado pelo Presidente da República, com a Comenda da Ordem de Mérito.
Era avesso a homenagens mas em 1989, Amália descerrou na rua onde nasceu duas lápides evocativas das vozes do fado emblemáticas deste bairro: Maria Severa Onofriana e Fernando da Silva Maurício. A Câmara Municipal de Lisboa assinalou em 1994 as suas bodas de ouro artísticas no S. Luiz. E em 2001 de novo o homenageou nos Paços do Concelho quando publicou, com a colaboração da então EBAHL (actual EGEAC) e da Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, a sua biografia pessoal e artística.
Faleceu a 15 de Julho de 2003 em Lisboa. O coração da fadista que chora, canta e sofre parou, mas os seus fados continuam a ser ouvidos nos bairros típicos de Lisboa.
A Câmara Municipal de Lisboa presta-lhe mais uma homenagem ao atribuir o seu nome a uma rua de Lisboa, na freguesia de Marvila. Desta vez os seus caminhos vão-se cruzar com Fernando Farinha e Armadinho, outras duas vozes do fado que, aqui perto, ficam recordados na toponímia de Lisboa.
Teresa Sancha Pereira (adaptado)
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ImageVoz romântica por excelência, Francisco José foi uma das revelações do Centro de Preparação de Artistas da Rádio e um dos nomes mais populares da canção ligeira dos anos cinquenta. Contam-se, contudo, pelos dedos os seus anos de carreira entre nós, já que a maior parte da sua carreira foi passada no Brasil.

Natural de Évora, nascido em 1924, Francisco José Galopim de Carvalho (de seu nome completo, sendo irmão do cientista Galopim de Carvalho) estreou-se artisticamente no baile de finalistas do seu liceu, mas só em 1948 encetou carreira profissional, depois de abandonar o curso de engenharia. Foi aceite no Centro de Preparação de Artistas de Rádio da Emissora Nacional nesse mesmo ano, e em breve a sua voz quente e sugestiva o torna num dos nomes preferidos dos ouvintes da rádio. E, em 1951, edita aquele que será o seu ex-libris: a balada Olhos Castanhos que se torna num êxito estrondoso e ficará para sempre ligada à sua voz. Não é, contudo, o seu único êxito, como o comprovarão Deixa Falar o Mundo ou Ana Paula.

Em 1954, embarca para o Brasil, mercado então muito aberto aos artistas portugueses, mas nem ele imaginava que acabaria por se fixar definitivamente no "país irmão", deixando para trás a carreira de sucesso feita em Portugal. Até 1960 actuará essencialmente para a comunidade portuguesa radicada no Brasil, e só em 1961 conseguirá aí gravar um primeiro disco: uma nova versão de Olhos Castanhos que atinge um sucesso sem precedentes no país, vendendo um milhão de cópias. Em pouco tempo, Francisco José tornar-se-á numa vedeta no Brasil e no artista português mais popular de sempre naquele país, onde residirá quase ininterruptamente até aos anos oitenta.
Regressa, contudo, regularmente a Portugal onde, em 1964, é protagonista de um "incidente diplomático" ao revelar, em directo e num programa de variedades, que os artistas portugueses eram mal pagos pelas suas participações em programas televisivos, enquanto os artistas internacionais recebiam pequenas fortunas. Não voltará a actuar na televisão portuguesa até 1980.

Em 1973, apresentará o seu maior êxito de sempre entre nós com Guitarra Toca Baixinho, lançado durante uma das temporadas que regularmente vem passar ao seu país natal. Só na década de oitenta regressará definitivamente a Portugal, onde lança, em 1983, o seu último disco, o single As Crianças Não Querem a Guerra. Faleceu em 1988.
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ImageHermínia Silva nasceu em 1907, cinco anos depois de Ercília Costa, a primeira fadista que saiu das fronteiras de Portugal. Cedo se tornou presença notada nos retiros de Lisboa, que não hesitaram em contratá-la, pela originalidade com que cantava o Fado. A Canção dos Bairros de Lisboa estava-lhe nas veias, não fôra ela nascida, ali mesmo junto ao Castelo de São Jorge. As "estórias" dos amores da Severa com o Conde de Vimioso estavam ainda frescas na memória do povo. O Fado fazia parte do seu quotidiano.
Rapidamente, a sua presença foi notada nos retiros, e passados poucos anos, em 1929, Hermínia Silva estreava-se numa Revista do Parque Mayer. Era a primeira vez que o Fado vendia bilhetes na Revista. Alguns jornais da época, referiam-se a ela, como a grande vedeta nacional, chegando a afirmar-se, que a fadista tinha "uma multidão de admiradores fanáticos". A sua melismática criativa, a inclusão no Fado, de letras menos tristes, por vezes com um forte cunho de crítica social, e o seu empenho em trazer para o Fado e para a guitarra portuguesa, fados não tradicionais, compostos por maestros como Jaime Mendes, compositores como Raul Ferrão, criando assim o chamado "fado musicado", aquele fado cuja música corresponde unicamente a uma letra, se bem que composto segundo a base do Fado, e em especial, tendo em atenção as potencialidades da guitarra portuguesa.
Hermínia Silva torna-se assim, sem o haver planeado, num dos vértices do Fado, tal qual hoje ele existe, enquanto estilo musical: Alfredo Marceneiro foi o primeiro vértice, o da exploração estilística do Fado Tradicional, tendo em Ercília Costa o seu maior ícone; Hermínia viria a trazer o Fado para as grandes salas do Teatro de Revista, e viria a "inaugurar" a futura Canção Nacional, com acompanhamentos de grandes orquestras, dirigidas por maestros, que também eram compositores. A sua fama atingiu um tal ponto que o Cinema, quis aproveitar o seu sucesso como figura de grande plano. Efectivamente, nove anos depois de se ter estreado na Revista, Hermínia integra o elenco do filme de Chianca de Garcia, "Aldeia da Roupa Branca" (1938), num papel que lhe permite cantar no filme. Nascera assim, a que viria a ser considerada, a segunda artista mais popular do século XX português, depois de Amália Rodrigues, o terceiro vértice do Fado, ainda por nascer.
Depois de várias presenças no estrangeiro, com especial incidência no Brasil e em Espanha, Hermínia aposta numa carreira mais concentrada em Portugal. O seu conhecido e parodiado receio em andar de avião, inviabilizou-lhe muitos contratos que surgiam em catadupa. Mas, Hermínia estava no Céu, na sua Lisboa das sete colinas. Em 43, é chamada para mais um filme, o "Costa do Castelo", em 46 roda o "Homem do Ribatejo", passando regularmente pelos palcos do Parque Mayer, fazendo sucesso com os seus fados e as suas rábulas de Revista. Efectivamente, Hermínia consegue alcançar tal êxito no Teatro, que o SNI, atribui-lhe o "Prémio Nacional do Teatro", um galardão muito cobiçado na época. Até 1969, em "O Diabo era Outro", a popularidade da fadista encheu os écrans dos cinemas de todo o país. Vieram mais Revistas, mais recitais, muitos discos de sucesso...
Mas, para quem quisesse conhecer a grande Hermínia bem mais de perto, ainda tinha a oportunidade de ouro, de vê-la ao vivo e a cores, sem microfone, na sua Casa - o Solar da Hermínia, restaurante que manteve quase até ao fim da sua vida artística. Há memórias de muita gente desse espaço fantástico, que não tive oportunidade de conhecer. O nosso companheiro Raúl, neste "Café Expresso", editor do blog "Congeminações", narrou-me uma vez, a noite fantástica que passou com Hermínia, no seu Solar. E muitos portugueses e estrangeiros guardam na memória, a voz e a presença daquela mulher que gostava da vida, e que cantava o Fado.
Felizmente, o Estado Português, o Antigo e o Contemporâneo, reconheceu Hermínia Silva. São vários os Prémios e Condecorações, as distinções e as nomeações, justíssimas para uma artista, que fez escola, e que hoje, constitui um dos três maiores nomes da Canção Nacional, ao lado de Marceneiro e de Amália, que por razões diferentes, pelos "apports" de forma e conteúdo distintos que trouxeram à Canção de Lisboa, fizeram dela, o Fado, tal qual hoje é entendido, cantado, tocado e formatado. A sacerdotisa cantou quase até partir para a dimensão do Espírito, em 13 de Junho de 1993. Morria assim, uma das maiores vedetas do Fado e do Teatro de Revista Português.

Marcos principais da carreira
1920 Canta para Alfredo Marceneiro e para os amigos, entre os quais Armandinho, que adoravam ouvir a "miúda". 1926 Começa a cantar no Valente das Farturas, no Parque Mayer. Alfredo Marceneiro canta ao lado, no Júlio das Farturas. 1929 Na Esplanada Egípcia, no Parque Mayer, interpreta Ouro Sobre Azul, De Trás da Orelha e Off-Side. 1932 Ainda no Parque, muda-se para o Teatro Maria Vitória, onde actua na opereta A Fonte Santa. 1933 Ingressa no Teatro Variedades, onde é segunda figura, logo a seguir a Beatriz Costa. Canta e representa em inúmeras revistas. 1958 Inaugura o Solar da Hermínia, no Bairro Alto, ao qual se dedicará de tal forma que deixa o teatro de revista. Estará à frente desta casa durante 25 anos. 1970 Faz uma digressão de 3 meses ao Brasil. 1982 Fecha o Solar da Hermínia, o ponto de referência da sua carreira e onde inúmeros artistas despontaram. 1987 Na discoteca Loucuras! dá um espectáculo memorável, na presença do então Presidente da República, Mário Soares.
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ImageNa história da música portuguesa existem muitas personalidades marcantes. Artistas que, pelo seu talento, carisma e popularidade marcaram o seu tempo.
Não são muitos, porém, os que determinaram a história da música. José Afonso foi um deles.
Ficaria conhecido por um nome ao mesmo tempo íntimo e universal: Zeca Afonso. Um nome que refere mais do que o artista, mas convoca uma figura poderosa no imaginário colectivo, figura que adquire contornos de mito. Disso tinha, de alguma forma, consciência. Na longa recolha de entrevistas que José António Salvador reuniu no livro Livra-te do Medo, afirma: "Eu um mito? (...) Só sinto que sou um mito quando me falam disso.
José Afonso não se limitou a determinar o curso da história da música. Foi protagonista destacado nas principais mudanças culturais, políticas e sociológicas que Portugal conheceu desde os anos sessenta.
Talvez seja esta a principal característica que distingue Zeca Afonso. Ele transcendeu largamente a sua condição de compositor-cantor e o seu estatuto de artista. Foi um homem que fez de novo.

"EU TINHA UMA GRANDE VONTADE DE CANTAR"
José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu em Aveiro, no dia 2 de Agosto de 1929. No ano seguinte os seus pais partem para Angola por razões profissionais, permanecendo ele em Aveiro, em casa de tios, devido a questões de saúde.
O seu pai, o juiz José Nepomuceno Afonso, deixou-lhe marca profunda: "Era um sujeito bastante neurótico, com grandes flutuações de humor, mas do ponto de vista intelectual de uma solidez, de uma precisão, de um rigor impressionantes. (...) Não encarou muito bem a minha actividade de cantor. (...) Queria um filho doutor. Formalmente teve, mas na prática deu-me para as cantigas. Mais tarde (...) foi-me aceitando melhor quando descobriu que as canções eram contra o regime".
É a sua mãe, professora primária, que vai exigir a ida de Zeca para Angola, com três anos. Viaja no navio Mouzinho, acompanhado por um tio que o deixa ao abandono por se encontrar em lua-de-mel. O rapazito vai agarrar-se a um missionário, a única pessoa que lhe presta atenção. Recordá-lo-á em sonhos por toda a vida.
No Bié, mais tarde em Luanda e depois em Lourenço Marques, Zeca Afonso fica profundamente impressionado por África. "A África como entidade física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas recordações".
Em 1936 volta de novo a Aveiro, partindo no ano seguinte para Moçambique, onde se junta de novo aos pais e aos irmãos, Maria (a Mariazinha) e João. Os irmãos serão uma presença forte na vida de José Afonso. O irmão, mais velho, é uma figura próxima e estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida. A irmã, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa de novo a "Portugal Continental", passando a residir na casa de um seu tio, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Aí contacta com a mentalidade profundamente conservadora do país interior, que muito o vai incomodar. Mas é, também, o período fértil em que descobre as canções populares da Beira, que mais tarde tão grande presença virão a ter na sua música.

Com 11 anos vai para Coimbra, para casa de uma tia, num ambiente igualmente fechado, conservador e ultra-religioso. Aí, no Liceu D. João III, conhece António Portugal e Luiz Goes. E é ainda no liceu que começa a cantar serenatas, o ponto inaugural da sua ligação à música. Dirá: "Eu tinha uma grande vontade de cantar. (...) Naquela altura qualquer tipo que tivesse um bocado de voz, mesmo pouca ou nenhuma, era imediatamente agregado para aquele grupo de serenatas. Havia também um mecanismo muito interessante, não sei se vinha da burguesia ou da nobreza, através do qual um tipo convidava um amigo que sabia cantar quando estava interessado em alguma rapariga que se encontrava sob reserva em qualquer "lar". Ao amigo que sabia cantar cabia-lhe o papel de prestar homenagem amorosa à rapariga, mandatado pelo interessado. Em muitas das serenatas desempenhei essa incumbência".
Nesses primeiros anos terá uma vivência apaixonada por Coimbra "Troquei essas recordações, uma espécie de liberdade física de que gozava em África, pelo mito de Coimbra, uma Coimbra romântica daquela liberdade libertina que nos cantavam e nós cantávamos. (...) Imaginava uma Coimbra além das suas reais dimensões. Era uma Coimbra poetizada, porque quando eu queria concretizar na cidade essa imagem, era uma chateza do caraças".

Em 1949 entra para a Universidade de Coimbra, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Virá a concluir a Licenciatura com um interesse apenas remoto, visto que a música era já a sua principal motivação. Alguns dos discos iniciais traziam na capa o nome do artista com "canudo": Doutor José Afonso. Desta época data, também, o seu primeiro casamento, do qual nascem os seus filhos José Manuel e Helena, e que será vivido no meio de severas dificuldades económicas.

"RIOS QUE VÃO DAR AO MAR"
Como tantos outros, José Afonso é atraído pela expressão musical mais aceite na Academia: o fado. Os seus dois primeiros discos de 78 rotações, são editados em 1953. Entre outros temas, neles estão Fado das Águias (o primeiro tema gravado pelo cantor) e Solitário, de António Menano. É acompanhado por António Brojo e António Portugal nas guitarras e Aurélio Reis e Mário de Castro nas violas. Três anos mais tarde edita o seu primeiro EP, de novo com fados de Coimbra.
A partir de 1958, já depois de uma digressão musical a Angola integrando a Tuna Académica, onde a realidade colonial e o racismo o deixam muito impressionado, José Afonso começa a cantar regularmente em colectividades e meios populares, em parte para superar dificuldades económicas.
Balada do Outono, um tema decisivo para a superação da forma tradicional do fado de Coimbra, e que está na origem do movimento da balada, é editado em 1960.

Águas
Passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar (...)

O conteúdo político do tema, com letra e música de Zeca Afonso, é apenas implícito. Mas foi descodificado pelos mais atentos, tal como não lhes escapou a ousadia formal da "Balada", que crismará um género consagrado na década seguinte. Na opinião de Louzã Henriques: "Considero muito importante a Balada do Outono do Zeca, porque pela primeira vez aparece uma coisa que, não tendo a estrutura de um fado, modificava a técnica da própria balada (...). Pela própria evolução do país começa então a vincar-se um desejo de intervenção política (...). Naturalmente, esta consciência política radicaliza alguns grupos, surgindo daí uma certa antipatia por coisas que eram tradicionais: a guitarra entra em desprestígio, bem como o próprio fado, o uso da capa e batina, a praxe, etc. (...) A guitarra praticamente desaparece ou passa para segundo plano; o suporte musical passa cada vez mais para a viola".

In Fados de Coimbra e...
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ImageLucília do Carmo é unanimemente reconhecida como uma das maiores estilistas do fado do século XX. Contudo, ironicamente, poucos sabem que esta cantora identificada para sempre com a canção popular de Lisboa é natural de Portalegre, onde nasceu em 1920, embora a família se tenha radicado em Lisboa quando Lucília tinha cinco anos.
O potencial da sua voz foi reconhecido ainda a cantadeira era adolescente e, com 17 anos apenas, estreou-se como profissional no Retiro da Severa, por intermédio de outra figura grande do fado da altura, Filipe Pinto. Em breve Lucília do Carmo era uma das fadistas mais afamadas da capital, actuando nas principais casas de fado, e chegando inclusive a atingir grande popularidade no Brasil, onde residiria durante cinco anos.

Regressada definitivamente a Portugal em 1947, Lucília do Carmo abriria a sua própria casa de fados no Bairro Alto. A Adega da Lucília tornar-se-ia histórica, sobretudo depois de o marido da cantora, Alfredo de Almeida (empresário com grande importância no desenvolvimento da sua carreira), sugerir uma mudança de nome.

Nascia assim o Faia, que se tornaria em ponto obrigatório de passagem para os amadores de fado, tal a qualidade do elenco que Lucília do Carmo atrairia para ali actuar (Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos ou Tristão da Silva foram apenas alguns dos nomes que lá cantaram). A direcção do Faia seria posteriormente assumida pelo filho da cantora, Carlos do Carmo (ele próprio fadista de grande mérito), depois do falecimento de Alfredo de Almeida. Relativamente avessa ao estúdio - deixou poucos discos gravados, embora esses poucos sejam obras essenciais do fado, como Maria Madalena ou Foi na Travessa da Palha - Lucília do Carmo retirou-se da música na década de 80. Faleceu em 1999 após doença prolongada.
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ImageConsiderado por muitos um dos últimos grandes fadistas castiços, Manuel de Almeida nasceu em 1922 em Lisboa. Sapateiro de profissão, começou a cantar fado com dez anos de idade, mas o seu feitio tímido jogava contra o seu talento, de tal modo que, embora desde 1937 participe em espectáculos de amadores, só em 1951 se profissionaliza, estreando-se no Tipóia e abandonando o seu ofício de sapateiro.
Manuel de Almeida gravou relativamente poucos discos, pois a maior parte da sua carreira foi feita nos retiros e casas de fado lisboetas, às quais se mantinha invulgarmente fiel: doze anos na Tipóia, onze no Lisboa à Noite, e dezasseis no Forte D. Rodrigo. Contudo, dos seus discos aquele que mais se destaca para muitos observadores é Eu Fadista Me Confesso, que Rão Kyao lhe produziu em 1987.
Faleceu em 1995.
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ImageMaria Teresa do Carmo de Noronha Guimarães Serôdio (Paraty), tratada carinhosamente por Baté pelos íntimos, (7 de Novembro de 1918, Lisboa — 4 de Julho de 1993, São Pedro de Sintra), foi uma fadista portuguesa de origem aristocrática, vindo a tornar-se Condessa de Sabrosa pelo seu casamento com D. José António Barbosa de Guimarães Serôdio, grande admirador do Fado, e guitarrista amador com uma sensibilidade fora do comum.
Com voz bem timbrada, e decidida aptidão para interpretar o Fado, desde muito cedo cantava nas festas de família e de amigos. Com a sua visita aos retiros de Fado passa a tornar-se conhecida a sua expressão artística, e a ganhar muitos admiradores autênticos, entre os conhecedores do Fado.
Grava o seu o seu primeiro single com o título de "O Fado dos Cinco Estilos" em 1939.
A Emissora Nacional, em 1938, convida Maria Teresa de Noronha, que acompanhada pelo guitarrista Fernando Freitas e pelo violista Abel Negrão, foi apresentada aos ouvintes pelo locutor D. João da Câmara, sendo tal o êxito que foi convidada para um programa semanal de Fados e Guitarradas, que esteve no ar vinte e três anos.
Fados como Fado da Verdade, Fado Hilário e Fado Anadia foram êxitos que muito agradaram ao grande público, assim como outros fados do seu repertório, entre os quais: Nosso Fado, Fado Menor e Maior, Minhas Penas, Pintadinho, Pombalinho, Fado Rio Maior, etc.
Em 1968 Abandona a Emissora Nacional mas não deixa de cantar, continuando a fazê-lo em privado.
De entre as suas actuações no estrangeiro, destaca-se em 1946 a sua deslocação a Espanha, por ocasião do Festival da Feira do Livro de Barcelona, e ainda Madrid, a convite do Governo espanhol, para actuar no Hotel Ritz, onde teve um êxito estrondoso. Ainda em 1946 vai ao Brasil e é igualmente muito apreciada. Actuou no Principado de Mónaco para Grace e Rainier e em 1964 desloca-se a Londres para actuar na BBC.
A sua dicção perfeita, a sua maneira de se expressar, domínio perfeito de figurações intrincadas como os pianinhos e os roubados tornou-a criadora de um estilo muito próprio, que fez escola.
in: “Lisboa no Guiness” by Victor Marceneiro
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19. Max
ImageMaximiano de Sousa ficou conhecido do grande público, pelo diminutivo “Max”, nasceu no Funchal a 20 de Janeiro e 1918.
Aprende o ofício de alfaiate, e mesmo depois de ser artista ainda durante muito tempo manteve essa profissão.
Em 1936 começou a actuar à noite num bar de um hotel do Funchal, em 1942 foi um dos fundadores do conjunto Toni Amaral, onde actuava como cantor e baterista.
Em 1946 integrando esse mesmo conjunto rumam a Lisboa e são contratados para actuar no famoso cabaré “Nina”.
Começou a cantar fado em 1948, e o primeiro sucesso chamou-se “ Não digas mal dela” com música de Armandinho e letra de Linhares Barbosa, o êxito deste fado foi tão grande que iniciou a carreira a solo, que rapidamente se transformou num sucesso.
Em 1949 gravou o seu primeiro disco para a “Valentim de Carvalho”, com duas canções que se tornaram no seu definitivo trampolim para o estrelato “Noites da Madeira” e “Bailinho da Madeira”. Foi o primeiro de muitos êxitos como :“ A mula da cooperativa” “Porto Santo” “ 31” “ Sinal da Cruz” e muitos mais. Em 1952 iniciou uma brilhante carreira de actor, a convite de Eugénio Salvador participa na revista “Saias Curtas” , o desempenho agradou e entrou numa longa série de revistas. Em 1957 partiu para os E.U.A onde se manteve dois anos, inicia outra digressão por Angola, Moçambique, África do Sul, Brasil e Argentina. Depois do enorme êxito desta digressão e regressado a Portugal, lançou um novo fado que igual sucesso “Pomba Branca”.
Além de cantor Max destacou-se como compositor, muitos dos êxitos que interpretou foram composições suas, mas é de salientar a sua parceria com Artur Ribeiro, “Vielas de Alfama”, “Noite” , “Rosinha dos Limões” etc..
Este grande cantor, compositor, autor e músico deixou-nos no ano de 1980.
Embora nascido na Madeira, foi em Lisboa que Max se formou como artista, e foi nesta também sua cidade que alcançou os grandes sucessos da sua carreira.
Max é um fadista de alma e um pedaço grande de Lisboa.


In  http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt
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ImageO entusiasmo que Teresa Silva Carvalho entregou, durante uma boa parte da sua vida, ao canto, sobretudo do fado, pode não ter tido equivalência numa carreira de êxito retumbante. Mas, com uma voz invulgarmente talentosa e uma escolha de raro critério de autores e compositores, deixou uma obra do maior nível no panorama da música popular portuguesa.
As lições de canto com a professora Maria Amélia Duarte D'Almeida revelam essa faceta empolgada de Teresa Silva Carvalho, que a elas chegava a tempo da aula ministrada ao aluno anterior e ficava depois da hora, para mais aprender. D. Maria Amélia ainda tentou que Teresa deixasse o fado para se dedicar à carreira de soprano dramática, para a qual tinha extraordinários dotes, mas a cantora já então revelava uma das características mais fortes da sua personalidade: a noção da independência.
A par da actividade artística, Teresa Silva Carvalho abraçou vocações paralelas, que preenchiam as suas ambições. É assim que se inscreve no Curso da Escola de Hotelaria, que veio a concluir, e que, por um acaso do destino, não ingressou na transportadora aérea TAP, onde poderia ter realizado um dos seus maiores sonhos: viajar.
Do Curso da Escola de Hotelaria tirou proveito como colaboradora do Hotel Palace do Buçaco e chefe de Relações Públicas do Hotel Balaia, no Algarve. Estas funções, contudo, não a impediram de aperfeiçoar constantemente o brilhantismo da sua carreira.
Após o enorme êxito de Ó Rama, Que Linda Rama, Teresa Silva Carvalho escolheu, voluntariamente, um exílio pessoal, longe das lides artísticas, entre a sua casa de Lisboa e a que fora de seu bisavô, em Cernache de Bonjardim. Dedica-se à leitura, à contemplação e ao cultivo de flores. Passeia e fotografa constantemente. De Teresa Silva Carvalho permanecem êxitos inesquecíveis como Canção Grata, Barca Bela e Amar.

Marcos principais da carreira:

1956   Com 18 anos, dá o seu primeiro espectáculo em Fão, Ofir, por ocasião do Cortejo dos Banhistas. Toca acordeão e canta o Fado Hilário e o Fado do Ciúme, acompanhada à guitarra e à viola pelo pedreiro e o sapateiro da aldeia.
Participa, por duas vezes, no programa Nova Onda, de Maria Leonor, onde cantou Sur Aio Vie e O Velho Fado do Castanheiro.
1965   Viaja até ao Brasil, onde dá o seu primeiro espectáculo de televisão. Actua em restaurantes típicos portugueses. Recebe, ainda no Brasil, o primeiro convite para gravar. De regresso a Portugal, é convidada a actuar na Taverna do Embuçado, de João Pereira Rosa, onde foi primeira figura durante anos.
1970   Recebe o Prémio de Imprensa,, destinado à Revelação de 1969. Dá espectáculos e grava discos com base nos poemas de alguns dos maiores nomes da literatura portuguesa. Vitorino produz e Teresa Silva Carvalho canta e grava Ó Rama, Que Linda Rama, o maior êxito da sua carreira.

In http://www.macua.org
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ImageAntónio Maria de Matos nasceu no Porto em 28 de Setembro de 1924. Os seus pais eram actores da Companhia Desmontável de Teatro Rafael de Oliveira e é aí que começa a cantar.
Em 1945, consegue entrar como cantor para a Emissora Nacional mas que abandona rapidamente.
Três anos mais tarde, por intermédio do fadista Júlio Peres, surpreende quem o ouve no Café Luso, em Lisboa, onde permanecerá durante dois anos.
Em 1950, o editor Manuel Simões leva-o a Madrid para gravar o seu primeiro disco. "Cartas de Amor" torna-se um grande êxito. Outros sucessos desta altura são "Trovador", "Ao Menos Uma Vez" e "A Lenda das Algas". Em 1952 estreia-se no teatro de revista.
Em 1953 actua pela primeira vez no Brasil. Em São Paulo cumpre, pelo dobro do tempo, um contrato inicial de 3 meses.
A partir de 1957 ficará no Brasil durante seis anos. Com Maria Sidónio abre, em Copacabana, o restaurante típico "O Fado". Chegava a actuar em seis ou sete espectáculos diários e à noite ainda cantava na sua casa de fados. Continuou a actuar com muito sucesso na rádio e na televisão.
Um EP com as canções "Só Nós Dois", "Procuro e Não Te Encontro", "Vendaval" e "Lado a Lado", gravado originalmente no Brasil, torna-se um grande sucesso em 1962. No ano seguinte decide regressar a Portugal.
Em 1964 enche o Pavilhão dos Desportos e faz a sua estreia no cinema no filme "A Canção da Saudade" de Henrique Campos
Em 3 de Abril de 1965, recebe no Pavilhão dos Desportos o Prémio de Imprensa da Música Ligeira de 1964.
Participa no filme "Rapazes de Táxis", de 1965, realizado por Constantino Esteves onde contracena com António Calvário.
Em 1966 concorre ao Festival RTP da Canção com "Nada e Ninguém".
Em 8 de Fevereiro de 1969 recebe o Prémio da Imprensa, na categoria de Fado, do ano de 1968. Participa ainda no filme "Bonança & Companhia" de 1969.
Em 1970 participa no filme "O Destino Marca a Hora" de Henrique Campos, onde também entram Isabel de Castro e Eugénio Salvador, onde canta temas como "O Destino Marca a Hora", "Não Digas Que Me Conheces", "Digo Adeus à Saudade" e "Viver Sem Ter Amor".
Em 1972 é estreado em Moçambique o filme "Derrapagem" onde participa como actor e produtor.
Faz uma digressão pelos Estados Unidos em 1974. No ano seguinte fixa aí residência ficando por lá durante 8 anos.
Funda, em Lisboa, com os fadistas Carlos Zel e Filipe Duarte, o restaurante "Fado Menor".
Em Junho de 1985 é convidado de Vitorino no seu espectáculo do Coliseu. Tony de Matos grava depois o álbum "Romântico". Em Novembro de 1985 dá um concerto em nome próprio no Coliseu dos Recreios que contou com a participação de Maria da Fé e Carlos Zel.
Participa no primeiro programa da série "Humor de Perdição", da autoria de Herman José.
No ano de 1988 é editado o álbum "Cantor Latino" onde cantou temas de Rui Veloso, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Tozé Brito, Maria Guinot, João Gil e Rosa Lobato de Faria.
Morreria em 8 de Junho de 1989, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de cancro.
O concerto do Coliseu dos Recreios, realizado em Novembro de 1985, foi editado em DVD numa edição da Ovação e dos Videos RTP.
In wikipedia
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ImageTalvez tenha sido o primeiro fadista a aproveitar com amplitude os meios de comunicação social para atingir o sucesso.

Manuel Martins Tristão da Silva, nascido em Lisboa, transportará consigo, ao longo da vida, uma identidade, um pathos genuinamente lisboeta.
Começa a cantar fado castiço desde criança, nas matinées das casas típicas. Assim se manterá por largos anos, repartindo esta actividade amadora com profissões próprias dos rapazes dos bairros pobres da capital. Primeiro marçano, depois marceneiro.

Antevê na rádio o grande salto para a consagração. Para tanto transforma o seu repertório, aproximando-se do fado-canção, então mais aceite nos microfones da Emissora Nacional. Mas será sucessivamente reprovado na sua admissão à estação oficial.

Por influência e acção do maestro Belo Marques fará uma série de gravações que, somadas ao repentino e esmagador êxito de Nem às Paredes Confesso e de Maria Morena contribuíram para que a prestação de provas à Emissora fosse finalmente bem sucedida.

A carreira de Tristão da Silva estava definitivamente lançada, assente num estilo muito pessoal. Voz de base grave, com uma bela tessitura, interpretação repousada, estilo romântico.

Com Da Janela do Meu Quarto, Calçada da Glória, Aquela Janela Virada Pró Mar, Ai Se Os Meus Olhos Falassem, o fadista estabelecerá uma sólida reputação e conquistará um público fiel.

Marcos principais da carreira:


1937 É contratado com apenas nove anos, para actuar no Café Mondego, de Lisboa.
1954 Após anos de actuações
regulares em casas de fado, grava o seu primeiro grande sucesso: Nem às Paredes Confesso.
1955 Digressão à Madeira.
1956 Deslocação a Espanha, para gravação de uma série de discos. Digressão em África.
1957 Foi o segundo artista português a actuar na RTP, num programa ainda transmitido a partir da Feira Popular de Lisboa.
1960 Digressão ao Brasil, que durará quatro anos, e que inclui, igualmente, actuações na Bolívia, Chile, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru. Receberá o galardão de melhor atracção de music-hall internacional em São Paulo.
1964 Por insistência de Vasco Morgado, regressa triunfalmente a Portugal e integra o elenco da revista Férias em Lisboa. Volta ao Brasil para resolver alguns negócios. Regressa a Portugal e retoma o circuito das casas típicas e das boites.
Morre num acidente de automóvel.